Pré-aviso: este post é
algo (muito) imodesto, mas depois de uma conversa com a minha secretária e de
um telefonema de um cliente que me acabou por tratar por “meu anjo”, não
resisti.
Em resposta a uma
pergunta da Mum’s the boss no seu blog sobre a nossa “missão” por cá, acabei
por escrever que era mesmo boa a “dar-me ao trabalho”.
E sou.
Profissionalmente,
esfarrapo-me quando tem que ser, mesmo que não tenha qualquer compensação
monetária por isso. Causas grandes ou causas pequenas recebem exactamente o
mesmo empenho, se é de justiça que estamos a falar. Se a questão estiver
relacionada com crianças, vou ao limite, ao limite mesmo, não deixo nada por
fazer, procuro tudo, vou para lá do politicamente correcto para que não fique
eu com um problema de consciência que poderia ser evitado com uma decisão mais
célere.
Aos meus familiares,
nunca nego um beijo, um abraço, um mimo. Escrevo-lhes muito, para que
um dia, quando cá já não estiver, o meu amor se continue a manifestar através
das minhas palavras. Mesmo ao meu pai, que é feito de outra massa, tão
diferente da minha, a quem preciso de arrancar um beijo, para lá do abraço e do
beijo a cada dia, lhe vou dizendo, de quando em quando, que o adoro, para que
se habitue a este amor dito e não contido.
Ao meu amor Miguel,
pelo amor em pormenor que lhe vou revelando desde há 13 anos. E sempre me
surpreendo com esta capacidade de reinventar o amor em pequenas coisas, nem que
seja na surpresa das surpresas que lhe rouba lágrimas ou numas meias novas
pelas que rasga a cada semana.
Ao meu amor Pedro,
pelas promessas que lhe faço em silêncio, por continuar a brincar mesmo quando
os meus olhos insistem em cerrar tal o cansaço, por procurar dar-lhe a conhecer
o mundo, num mergulho de piscina, num movimento teatral, no cheiro da terra,
nos sons dos patos, do piano, da guitarra, no girar das rodas, na colher de
gelado dos mais diversos sabores, no rebolar do chão, ainda que se suje tanto
que não me deixe dúvidas de que as nódoas persistirão (ainda não foi inventado
detergente tão eficaz) mas que é feliz e que nada do que é bom na vida lhe é
negado.
Aos meus amigos, dou-me
ao trabalho de lhes mostrar como é rara esta amizade que nos calhou, fica dito
nos abraços, nos beijos, nos postais, nas cartas antigas, nas sms sem especial
razão, nos lanches, nos jantares, nos almoços de Domingo, nos risos, nos
choros.
Aos meus outros
familiares não tão próximos, quando planeio uma surpresa daquelas, perfeita
mesma, bem sabendo que quem o devia fazer não o faria, bem sabendo que por mim
não haveria tanto empenho.
Aos outros, que não me
são nada, dou-me ao trabalho quando acho que o merecem, seja ao arrumador de
carros que foge de mim para não me pedir moeda, mas que um dia precisou de
ajuda, seja à neta do sapateiro, que, de outro modo, não teria um ovo de
chocolate na Páscoa.
Aos animais, pelo
cuidado que lhes dediquei sempre que me caíram nas mãos. É uma coisa mesmo
curiosa, mas parece que tenho uma certa queda para salvadora de bichos: já
salvei um gato que caiu da chaminé de uma casa de férias no Algarve, um melro
que caiu do ninho antes do tempo, um periquito que me entrou pela sala dentro
enquanto estudava, um agarponis azul quando, num dia triste, ia tomar um café e
o vi no chão da estrada, na linha contínua, e fiz parar o trânsito, em pleno
Porto.
Tudo isto sai-me do
corpo, mas compensa. Ou seja, dou-me ao trabalho pelos outros e por mim.