quinta-feira, 30 de agosto de 2012
As férias
As férias trouxeram-me más notícias, daquelas que me tornam melhores porque antecipam decisões, me obrigam a estar ainda mais presente, com um abraço pronto, um beijo destinado, as lágrimas de confiança. As férias relembraram-me como tenho amigos especiais, uma amiga que é uma irmã, um marido que é um companheiro. As férias trouxeram-me ainda outras notícias más, a injustiça que nos espreita a todos nós mas o consolo do regresso a casa e da certeza de que tudo será como dantes. As férias fizeram-me voltar a locais de que gosto, agora com um filho que não deixa de calcar com a sua corrida acelerada cada areia da costa alentejana. As férias permitiram- me uma recordação eterna no desenho de uma concha achada a 3 nas areias de Tróia. As férias relembraram-me sabores com alma, peixe e marisco fresco, pizza pazza, gelados do santini, migas e ovos com espargos. A roupa mais justa não me deixa esquecer que as férias me deixaram quilos a mais... As férias fizeram- me revisitar o meu Porto, voltar a lugares da infância e descobrir outros pela primeira vez, mostrar a nossa cidade ao Pedro do cimo da ponte D. Luis e contemplar que temos tanto tão perto. As férias permitiram- me recordações inigualáveis no guincho com os pés na areia fina e numa floresta com os pés no ar, levados os 6 por bolas de sabão. As férias permitiram o reencontro dos dois amigos mais pequenos e a certeza de que são mesmo irmãos porque aos 18 meses só quem se ama como família dança de alegria ou repete o nome vezes sem conta. As férias deram-me a serenidade do Alentejo profundo, o pôr do sol rente a nós, a lua quase cheia em brilho intenso. As férias trouxeram-me o choro mais longo do meu pequeno, a dor que é maior em nós a cada lágrima mas a confirmação de que me comporto como uma mãe deve ser. As férias permitiram- me voltar a falar de mágoas passadas e tentar ser melhor. Outra vez, falar para ser melhor. As férias trouxeram- me expectativas que não se confirmaram. Mas as férias deram- me muitas horas de sono em falta e por isso mais sonhos...
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Eu, a espécie rara outra vez.
Já fui escrevendo sobre isto, aqui e ali.
A minha visão sobre o pós-parto, a relação a dois depois de seremos três, a maternidade, a educação não é coincidente com a generalidade dos discursos que por aí ouço.
Há um receio que é recorrente nas mães que eu não tenho: o medo de morrer. Não que não me assuste a morte pela sua definitividade, mas o meu medo de deixar de viver manteve-se inalterado após o nascimento do Pedro.
Aliás, como já escrevi, o Pedro trouxe-me alguma serenidade nesse aspecto, porque nele estou eu também, nele está a minha história, a minha vida, a minha marca, nessa forma mais perfeita que só um bebé consegue trazer às coisas.
No outro dia uma amiga falava-me do susto que apanhara na eminência de um acidente rodoviário e no seu pensamento de morrer e de deixar a filha pequena sem mãe. A falta que lhe faria… Isso é indiscutível. Porque não há um tempo certo para ficarmos sem mãe, sem pai, sem avós. Não há isso do “cedo demais” porque nunca é tempo.
Ou seja, não tenho dúvidas de que há um lugar na vida do Pedro que só a mim me pertence e que, se eu morresse precocemente, muito ficaria por partilhar, por dizer, por viver.
No entanto, não sinto qualquer angústia pela minha ausência, mesmo que definitiva. Não sinto esse medo. E claro, uma ou outra vez questiono-me se isso, que parece ser típico da condição de mãe, me faz pior.
Espero que não.
Confio tanto nas pessoas que fazem parte do Pedro, no Miguel, nos meus pais, nos meus sogros, nos tios maravilhosos que o meu pequeno recebeu, que sei que, na minha ausência, apesar disso, o meu filho teria o melhor e seria feliz.
E, paralelamente, vem-me à cabeça a estranha postura que tão frequentemente encontro em pais e mães que, após o divórcio, se sentem inseguros em deixar o filho com quem antes o confiavam cegamente, com quem antes até se pedia mais (mais muda de fralda, mais banho, mais dar o jantar) e que agora, porque o vínculo do casamento se desfez, já não é capaz, já não sabe, já não cuida.
Sei que não serei assim se um dia a vida me afastar do Miguel (kido, isto é só um raciocínio). Nada me faz duvidar que fará sempre o melhor para o Pedro, que cumprirá escrupulosamente o que delineamos para o nosso filho e que não será nunca o fim do nosso amor que colocará em causa esse amor maior que sentimos pelo Pedro.
Digo isto tão convictamente que sei, pela experiência (e até é alguma neste domínio), que também aqui fujo à regra.
A minha visão sobre o pós-parto, a relação a dois depois de seremos três, a maternidade, a educação não é coincidente com a generalidade dos discursos que por aí ouço.
Há um receio que é recorrente nas mães que eu não tenho: o medo de morrer. Não que não me assuste a morte pela sua definitividade, mas o meu medo de deixar de viver manteve-se inalterado após o nascimento do Pedro.
Aliás, como já escrevi, o Pedro trouxe-me alguma serenidade nesse aspecto, porque nele estou eu também, nele está a minha história, a minha vida, a minha marca, nessa forma mais perfeita que só um bebé consegue trazer às coisas.
No outro dia uma amiga falava-me do susto que apanhara na eminência de um acidente rodoviário e no seu pensamento de morrer e de deixar a filha pequena sem mãe. A falta que lhe faria… Isso é indiscutível. Porque não há um tempo certo para ficarmos sem mãe, sem pai, sem avós. Não há isso do “cedo demais” porque nunca é tempo.
Ou seja, não tenho dúvidas de que há um lugar na vida do Pedro que só a mim me pertence e que, se eu morresse precocemente, muito ficaria por partilhar, por dizer, por viver.
No entanto, não sinto qualquer angústia pela minha ausência, mesmo que definitiva. Não sinto esse medo. E claro, uma ou outra vez questiono-me se isso, que parece ser típico da condição de mãe, me faz pior.
Espero que não.
Confio tanto nas pessoas que fazem parte do Pedro, no Miguel, nos meus pais, nos meus sogros, nos tios maravilhosos que o meu pequeno recebeu, que sei que, na minha ausência, apesar disso, o meu filho teria o melhor e seria feliz.
E, paralelamente, vem-me à cabeça a estranha postura que tão frequentemente encontro em pais e mães que, após o divórcio, se sentem inseguros em deixar o filho com quem antes o confiavam cegamente, com quem antes até se pedia mais (mais muda de fralda, mais banho, mais dar o jantar) e que agora, porque o vínculo do casamento se desfez, já não é capaz, já não sabe, já não cuida.
Sei que não serei assim se um dia a vida me afastar do Miguel (kido, isto é só um raciocínio). Nada me faz duvidar que fará sempre o melhor para o Pedro, que cumprirá escrupulosamente o que delineamos para o nosso filho e que não será nunca o fim do nosso amor que colocará em causa esse amor maior que sentimos pelo Pedro.
Digo isto tão convictamente que sei, pela experiência (e até é alguma neste domínio), que também aqui fujo à regra.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Toda a vida ouvi isto
Tudo começou na minha infância com um hábito incompreensível de esconder os brinquedos mais queridos, para os poupar ao uso. Não brincava com eles, saíam da minha vista e tempos mais tarde tinha a agradável surpresa de os encontrar num lugar impensável.
A coisa foi refinando com a chegada da vida adulta. Com excepção de dois óculos graduados, que perdi mesmo, muitas vezes não sei onde guardo as coisas, dando-as como perdidas. Óculos de sol, brincos, relógios, aquele casaco que queria mesmo usar e não podia ser outro. Tudo acaba por aparecer, ou depois de ter adquirido algo em substituição, o que me deixa fula, ou quando até já nem era preciso porque já nem gosto tanto da peça ou a estação do ano já mudou.
O último episódio aconteceu recentemente. Há 10 mil km atrás, na revisão do meu carro, fiz com que os senhores da oficina o revirassem para encontrarem a chave de segurança dos pneus, já que os mesmos precisavam de ser cruzados. E nada. Não apareceu. E os pneus não foram cruzados.
10 mil km depois, com as férias a chegarem e com a insistência do meu marido para resolver a coisa, porque não dá jeito furar um pneu no meio do Alentejo e não ter a chave de segurança para o poder substituir, voltámos a procurar. (Eu, sem esperança, encomendei uma chave nova). Procurámos tudo, o apartamento todo, o carro todo (várias vezes), até o carro do meu marido, porque até a podia ter deixado lá, já que se o pneu furasse teria que ter ajuda, seria ao Miguel a quem telefonaria e o Miguel só se desloca de carro (até fazia sentido, não?). E nada.
Numa noite, o Miguel, que me conhece tão bem (porque só quem me conhece tão bem vai procurar naquele lugar), encontrou-a. A chave de segurança dos pneus estava na gaveta dos necessaires. Não faz sentido, eu sei. Por muito esforço que faça, não encontro explicação para o sucedido. E tive que ouvir, até nos deitarmos, “quem é o maior? Vá, diz lá, quem é o maior?”
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
O que eu não dava para estar aqui novamente!
Mais perto das nuvens.
Em silêncio.
De mãos dadas com o amor.
Em paz.
Longe da realidade.
Rente ao sonho.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Virtualidades
Há uma dimensão que trespassa o que é virtual quando se
segue um blog com regularidade.
Desde que o faço, aprendi mais, senti-me menos espécie rara, perspectivei alternativas, ri-me, passei à acção, tive retorno, comovi-me, percebi que o mundo é mesmo redondo e criei empatia por quem nunca vi em carne e osso.
Gosto tanto disso.
E não me importo de continuar a ouvir “o quê? leste isso nos teus blogs?” Sendo que só tenho um, que é este. Mas é mesmo isso, é como se aqueles que sigo religiosamente fossem um bocadinho meus.
Desde que o faço, aprendi mais, senti-me menos espécie rara, perspectivei alternativas, ri-me, passei à acção, tive retorno, comovi-me, percebi que o mundo é mesmo redondo e criei empatia por quem nunca vi em carne e osso.
Gosto tanto disso.
E não me importo de continuar a ouvir “o quê? leste isso nos teus blogs?” Sendo que só tenho um, que é este. Mas é mesmo isso, é como se aqueles que sigo religiosamente fossem um bocadinho meus.
É a grande virtualidade disto, que afinal não é assim tão
virtual.
Um beijo maior à Princesa e à Valsita por mais um selo.
E um beijo maior à Duchess pelas lágrimas e pelo elogio.. ;)
E um beijo maior à Magda por tudo aquilo que me vai
ensinando (por vezes via Melancia).
E um beijo maior, assim para o gigante, à Melancia pelo post
dedicado aos pés de família.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
E se a minha infância se resumisse a uma imagem
Poderia bem ser esta.
Porque foi uma infância doce.
Porque foi uma infância marcada por rituais.
Porque foi uma infância com rasgos de surpresa, euforia, maluquice pura.
Tinha eu cerca de 6 anos e, ritualmente, acompanhava o meu
pai e a minha mãe para o café após o jantar. Café de beira de estrada, junto a
uma bomba de gasolina. Ou seja, charme? Nenhum. Mas nem é isso que importa
quando somos crianças.
Os meus pais sempre foram algo permissivos quanto à minha
alimentação. Não me lembro de me ser recusado um chocolate (mal! É por isso que
hoje sou dependente), um gelado (só não podia ser calipo, sei lá porquê), um
sumo. E por isso, quase a cada noite, me era permitido fazer um furinho e esperar pela cor da bolinha para saber que chocolate me caberia. Tanto fazia. Gostava de todos. Mas era uma emoção, nesses milésimos de segundos de espera ansiava pela bolinha prateada ou dourada, que me trariam um chocolate enorme.
Não deixa de ser curioso como estas lembranças me trazem o empolgamento
da altura. É tão fácil ser feliz em criança.
Depois, de vez em quando, num acto absolutamente irracional,
o meu pai deixava-me fazer vários furos de uma vez, até mais de 10, porque quem
fizesse o último furo, tinha como acréscimo um grande conjunto de chocolates.
Como eu vibrava com a loucura do meu pai. “Mesmo, pai? Todos?” Lembro-me tão
bem que o espanto que me assolava estava também no rosto do empregado do café.
E recordo a voz da minha mãe, ao longe, sem se impor propriamente, mas a lançar
algo como “não têm mesmo juízo”.
E não tínhamos. E a infância é feita de dias assim. Em que
se perde o juízo para se ganhar a noite, regressando a casa carregada de
chocolates.
Cresci e deixei de acompanhar os meus pais ao café com a
mesma regularidade. Um dia reparei que a máquina dos furinhos (eu sei que aquilo não é uma máquina mas era assim que a chamava) já lá não estava.
Nem lá nem em lado nenhum.
Passaram-se anos até ter repetido a emoção, desta vez com
amigas, numa feira em Viana. Lembro-me que senti o mesmo entusiasmo e que
telefonei aos meus pais para lhes dar conta que, por mais uns minutos, voltei à
infância.
Hoje, voltei mais uma vez. Só por causa desta imagem.
Obrigada Susanita.
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