sexta-feira, 14 de setembro de 2012

...

Coube sempre no colo da minha mãe. Em criança, na adolescência, na vida adulta.
No dia anterior ao nascimento do Pedro adormeci no colo da minha mãe, como em tantas e incontáveis vezes.
Ainda há uns meses me deitei sobre o colo da minha mãe e voltei a dormir.

O que mudou? Também eu dou colo à minha mãe. Também a vejo frágil, vulnerável, insegura, como nunca poderia imaginar enquanto criança.
Agora que as notícias são boas, trago comigo esta nova realidade: sou crescida, sou adulta, sou capaz. Porque se em quem eu sempre confiei para me amparar se agarrou aos meus braços, sou mesmo capaz.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Na curva do teu/meu pescoço


A primeira imagem que tenho da minha mãe não é visual. É um cheiro. Lembro-me de ser pequena, pequena mesmo, e de lhe cheirar a curva do pescoço. E cheirava “tão bem”, era assim que eu o dizia. Não era um perfume, era mesmo o cheiro do seu corpo que o meu amor desmesurado transmutava no melhor perfume de sempre.

Acho que com o Pedro também é assim. Sei que me sente, talvez porque me cheira, mesmo sem me ver. É assim de manhã, depois do primeiro leite, quando o dia ainda é pequenino e a luz escassa no quarto. Levo-o para a nossa cama, só para uns minutos de mimo (ao fim-de-semana são bem duas horas) antes do despertador tocar definitivamente e nos trazer à realidade. Se me levanto ouço “mamã?”. É assim no carro, quando me pede sonolento que lhe agarre a mão. Faço-o com custo, porque o Pedro viaja numa cadeira invertida e tenho que me contorcer para lhe chegar à mão. Se outra pessoa, o pai ou alguém que vá atrás com ele, lhe agarra a mão, mesmo com os olhos já cerrados pergunta “mamã?”. É assim no último leitinho, mesmo antes de se deitar, onde me parece dormir melhor, bem junto ao meu peito na direcção desse lugar de cheiros de infância.

Apesar de estar quase diariamente com a minha mãe, já não lhe encontro esse cheiro da infância. Como se fosse o cheiro de um tempo, daquele tempo. Mas tenho-o absolutamente presente. Não o reconheço em qualquer outro lugar, mas ao pensar no colo da minha mãe, sinto-o mesmo aqui, junto ao meu nariz.
E isso faz-me pensar qual o cheiro que o Pedro reconhece em mim.
Talvez doce, nessa combinação perfeita de chocolate e amor.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O que os olhos não vêem...

Ontem foi noite de birras. Nenhum drama, porque o pequeno está na idade disso, porque já li imensa coisa sobre o assunto, porque estou psicologicamente preparada para me manter firme, abraçá-lo quando começa com aquela dança tribal, que até me faz esboçar um sorriso, consolá-lo quando passa para o choro, mas sempre repetindo "não, não se faz isso..."
O motivo? O pequeno não reagiu bem ao facto de lhe inibir esta nova tendência para atirar carros pelo ar, atingindo os mais descuidados, como o caso do meu pé, que já é de fraca qualidade e que por isso não precisava de um downgrade.
O outro motivo? (esta já sou eu a dar numa de psicóloga) As férias acabaram e ontem foi o primeiro dia do regresso à rotina, sem ter os pais permanentemente presentes.

Ora então a cena começa com dois carros, um em cada mão do Pedro, uma contagem interior do género "em 3, 2, 1" (sou eu a ficcionar a coisa, mas parece mesmo), e lançamento de carros.

Eu: Não! (em voz grossa, quase que não me reconheço) Depois já no tom normal: Não se atira os carros para o ar! Estragas os carros, estragas o chão e, sem querer, ainda magoaste o pé da mamã.

Pedro: Inicia a dança tribal, que é uma dança em que sincroniza os pés e os braços, abana-os freneticamente, não saindo praticamente do lugar. Depois chora, chora mesmo, com lágrimas, como se se tratasse da maior injustiça coartar-lhe o jeito que tem para o lançamento de carros.

Eu: Não, filho, não se atira os carros, sempre abraçando-o e falando-lhe com calma.

Take 2: igualzinho, sem a parte de me atingir o pé, porque já estava de sobreaviso.

Take 3: idem, mas agora fica sem os carros. Chora mais. Depois de o serenar, já não estando a chorar, devolvo-lhe os carros.

Take 4: Faz o gesto, como se os fosse atirar, mas diz "não, não" (fofo que só visto), faz segunda vez o gesto, mas sempre dizendo "não, não". Sai da sala, vai para o hall de entrada, achando que estava longe da minha vista e atira os carros sem eu supostamente o ver.

Não fiz nada. Não o repreendi. O que os olhos não vêem o coração não sente... ;)
Não sei se fiz bem, mas a verdade é que o Pedro compreendeu o que lhe disse, não quis deixar de o fazer por mais uma vez, quase numa tentativa de sair vencedor, ainda que no anonimato. Isso acalmou-o, voltou à sala, trouxe os carros e eles passaram a circular rasteiramente.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

As férias

As férias trouxeram-me más notícias, daquelas que me tornam melhores porque antecipam decisões, me obrigam a estar ainda mais presente, com um abraço pronto, um beijo destinado, as lágrimas de confiança. As férias relembraram-me como tenho amigos especiais, uma amiga que é uma irmã, um marido que é um companheiro. As férias trouxeram-me ainda outras notícias más, a injustiça que nos espreita a todos nós mas o consolo do regresso a casa e da certeza de que tudo será como dantes. As férias fizeram-me voltar a locais de que gosto, agora com um filho que não deixa de calcar com a sua corrida acelerada cada areia da costa alentejana. As férias permitiram- me uma recordação eterna no desenho de uma concha achada a 3 nas areias de Tróia. As férias relembraram-me sabores com alma, peixe e marisco fresco, pizza pazza, gelados do santini, migas e ovos com espargos. A roupa mais justa não me deixa esquecer que as férias me deixaram quilos a mais... As férias fizeram- me revisitar o meu Porto, voltar a lugares da infância e descobrir outros pela primeira vez, mostrar a nossa cidade ao Pedro do cimo da ponte D. Luis e contemplar que temos tanto tão perto. As férias permitiram- me recordações inigualáveis no guincho com os pés na areia fina e numa floresta com os pés no ar, levados os 6 por bolas de sabão. As férias permitiram o reencontro dos dois amigos mais pequenos e a certeza de que são mesmo irmãos porque aos 18 meses só quem se ama como família dança de alegria ou repete o nome vezes sem conta. As férias deram-me a serenidade do Alentejo profundo, o pôr do sol rente a nós, a lua quase cheia em brilho intenso. As férias trouxeram-me o choro mais longo do meu pequeno, a dor que é maior em nós a cada lágrima mas a confirmação de que me comporto como uma mãe deve ser. As férias permitiram- me voltar a falar de mágoas passadas e tentar ser melhor. Outra vez, falar para ser melhor. As férias trouxeram- me expectativas que não se confirmaram. Mas as férias deram- me muitas horas de sono em falta e por isso mais sonhos... 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eu, a espécie rara outra vez.

Já fui escrevendo sobre isto, aqui e ali.
A minha visão sobre o pós-parto, a relação a dois depois de seremos três, a maternidade, a educação não é coincidente com a generalidade dos discursos que por aí ouço.
Há um receio que é recorrente nas mães que eu não tenho: o medo de morrer. Não que não me assuste a morte pela sua definitividade, mas o meu medo de deixar de viver manteve-se inalterado após o nascimento do Pedro.
Aliás, como já escrevi, o Pedro trouxe-me alguma serenidade nesse aspecto, porque nele estou eu também, nele está a minha história, a minha vida, a minha marca, nessa forma mais perfeita que só um bebé consegue trazer às coisas.
No outro dia uma amiga falava-me do susto que apanhara na eminência de um acidente rodoviário e no seu pensamento de morrer e de deixar a filha pequena sem mãe. A falta que lhe faria… Isso é indiscutível. Porque não há um tempo certo para ficarmos sem mãe, sem pai, sem avós. Não há isso do “cedo demais” porque nunca é tempo.
Ou seja, não tenho dúvidas de que há um lugar na vida do Pedro que só a mim me pertence e que, se eu morresse precocemente, muito ficaria por partilhar, por dizer, por viver.
No entanto, não sinto qualquer angústia pela minha ausência, mesmo que definitiva. Não sinto esse medo. E claro, uma ou outra vez questiono-me se isso, que parece ser típico da condição de mãe, me faz pior.
Espero que não.
Confio tanto nas pessoas que fazem parte do Pedro, no Miguel, nos meus pais, nos meus sogros, nos tios maravilhosos que o meu pequeno recebeu, que sei que, na minha ausência, apesar disso, o meu filho teria o melhor e seria feliz.
E, paralelamente, vem-me à cabeça a estranha postura que tão frequentemente encontro em pais e mães que, após o divórcio, se sentem inseguros em deixar o filho com quem antes o confiavam cegamente, com quem antes até se pedia mais (mais muda de fralda, mais banho, mais dar o jantar) e que agora, porque o vínculo do casamento se desfez, já não é capaz, já não sabe, já não cuida.
Sei que não serei assim se um dia a vida me afastar do Miguel (kido, isto é só um raciocínio). Nada me faz duvidar que fará sempre o melhor para o Pedro, que cumprirá escrupulosamente o que delineamos para o nosso filho e que não será nunca o fim do nosso amor que colocará em causa esse amor maior que sentimos pelo Pedro.
Digo isto tão convictamente que sei, pela experiência (e até é alguma neste domínio), que também aqui fujo à regra.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Toda a vida ouvi isto


 "Só não perdes a cabeça porque está presa ao pescoço”
Mas nem é bem isso, não perco propriamente as coisas, guardo-as bem guardadas e, depois de um ataque súbito de amnésia, perco-as de vista, por dias, semanas, meses.
Tudo começou na minha infância com um hábito incompreensível de esconder os brinquedos mais queridos, para os poupar ao uso. Não brincava com eles, saíam da minha vista e tempos mais tarde tinha a agradável surpresa de os encontrar num lugar impensável.
A coisa foi refinando com a chegada da vida adulta. Com excepção de dois óculos graduados, que perdi mesmo, muitas vezes não sei onde guardo as coisas, dando-as como perdidas. Óculos de sol, brincos, relógios, aquele casaco que queria mesmo usar e não podia ser outro. Tudo acaba por aparecer, ou depois de ter adquirido algo em substituição, o que me deixa fula, ou quando até já nem era preciso porque já nem gosto tanto da peça ou a estação do ano já mudou.
O último episódio aconteceu recentemente. Há 10 mil km atrás, na revisão do meu carro, fiz com que os senhores da oficina o revirassem para encontrarem a chave de segurança dos pneus, já que os mesmos precisavam de ser cruzados. E nada. Não apareceu. E os pneus não foram cruzados.
10 mil km depois, com as férias a chegarem e com a insistência do meu marido para resolver a coisa, porque não dá jeito furar um pneu no meio do Alentejo e não ter a chave de segurança para o poder substituir, voltámos a procurar. (Eu, sem esperança, encomendei uma chave nova). Procurámos tudo, o apartamento todo, o carro todo (várias vezes), até o carro do meu marido, porque até a podia ter deixado lá, já que se o pneu furasse teria que ter ajuda, seria ao Miguel a quem telefonaria e o Miguel só se desloca de carro (até fazia sentido, não?). E nada.
Numa noite, o Miguel, que me conhece tão bem (porque só quem me conhece tão bem vai procurar naquele lugar), encontrou-a. A chave de segurança dos pneus estava na gaveta dos necessaires. Não faz sentido, eu sei. Por muito esforço que faça, não encontro explicação para o sucedido. E tive que ouvir, até nos deitarmos, “quem é o maior? Vá, diz lá, quem é o maior?”

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O que eu não dava para estar aqui novamente!


Mais perto das nuvens.
Em silêncio.
De mãos dadas com o amor.
Em paz.
Longe da realidade.
Rente ao sonho.