segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Poveirinha

Hoje recebi um email com imagens da cidade onde nasci. Imagens de um tempo que me antecede. Ainda assim, essa cidade onde nasci por acaso (ou não), é hoje tão diferente…

Póvoa de Varzim. Em todas as estações. Passei quase todos os fins-de-semana da minha infância em casa dos meus avós. Nas férias grandes, várias semanas eram escolhidas para que evitasse as doenças de Inverno nessa praia de areia grossa e de mar revolto. As memórias que tenho da infância esbarram com as memórias que tenho da Póvoa.

A Póvoa na Primavera. Nesse jardim junto ao apartamento dos meus avós. Com o meu primo irmão, a correr. A convicção durante anos de que a imagem à saída do prédio era a do meu avô. Sim, porque, aos meus olhos (ou direi ao meu coração?), o meu avô era importante ao ponto de ter o seu rosto pintado na parede do prédio.

A Póvoa no Verão. Calor. Tantos primos que se encontravam no apartamento dos meus avós. Tanto calor. O caminho para a praia. Um labirinto nas traseiras de um prédio que não era o nosso mas que visitávamos às escondidas dos meus avós. O som das rãs. O cheiro das rãs. Sou de um tempo (nunca pensei dizer isto) em que em vez de prédios, a caminho da praia, havia um lago gigante cheio de rãs. Penso agora que talvez fosse fruto da construção que se adivinhava ou o que teria ficado de uma obra embargada. Mas ao tempo era tão só o lago das rãs. A praia, único lugar onde tinha uma barraca reservada. Beijinhos e estrelas do mar. Um corneto de morango à saída. Melaço nas mãos e salitre nas costas. Nos dias mais longos, era-nos permitido um gelado extra depois do jantar. Vinha o meu avô carregado com os pedidos dos netos e um super maxi para a minha avó.

A Póvoa no Outono. As folhas secas à porta do prédio. O vento. Tanto vento. A história de que por causa do vento a minha mãe recebera um casaco de pele quando na Póvoa se instalaram vindos de Angola.

A Póvoa no Inverno. No dia em que nasci. Em todos os outros. Ouvir a minha mãe dizer que era assim que adorava a Póvoa. A ver a chuva cair no vidro do carro junto ao mar. Na véspera de Natal. Em todas as manhãs de Domingo que saía da minha cama e me enroscava no meio dos meus avós. Voltava a adormecer embalada pelo som dos cascos dos cavalos que puxavam as carroças. Tenho tantas saudades desse som. Sim, porque sou do tempo em que as carroças abundavam na Póvoa.

O sítio onde nascemos faz-nos. Também. Cresci a ouvir dizer que era mesmo Poveirinha. Refilona. Sem papas na língua. Eu, Poveirinha. Em todas as estações. Feita dessa cidade que só era minha ao fim-de-semana, mas que me tinha todos os dias por causa dos meus avós.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Os 4 corações

Há uns dias encontrei-me por acaso com 4 corações. Os 4 numa montra de uma loja. Com umas frases pintadas em francês, essa língua que não domino. Um dizia algo como a minha primeira pulseira do hospital, o outro a primeira madeixa de cabelo, outro ainda o primeiro dente de leite e o quarto não conseguia chegar lá. "Porte bonheur"... A internet salva-nos sempre. Seria a caixinha para guardar a primeira lembrança da sorte, de protecção, como uma figa ou um trevo. Trouxe os 4 corações para casa. Coloquei a pulseirinha do hospital no coração respectivo. Guardei dois deles porque me separam anos da queda do primeiro dente de leite e porque o cabelo do Pedro teima em não crescer. No coração do "porte bonheur" coloqui a mola com o cordão umbilical do Pedro. Coube na perfeição. E não é que faz todo o sentido?! Há maior protecção do que aquela que nos chega por esta ligação inviolável e intra-uterina?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#19

Quando o que seria motivo de orgulho e prova de criatividade
É mesmo a cadeira da sala de jantar...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A primeira vez

O que é mais surpreendente num filho é a quantidade de “primeiras vezes” que nos ficam agarradas à memória e ao coração. Vivo em espanto. Com tudo o me dá pela primeira vez, com tudo o que faz pela primeira vez.

Não me esqueço de tantas primeiras vezes. Ainda lhes sinto o cheiro, a confusão das cores, os paladares, o coração a bater mais depressa. Tudo por causa deste amor à primeira vista.
A primeira vez que o vi, tão cor-de-rosa.
A primeira vez que o alimentei, a boca na minha pele.
A primeira vez que vi o Miguel a dar-lhe banho.
A primeira vez que sorriu.
A primeira vez que se deixou fotografar profissionalmente.
A primeira vez que mergulhou na piscina.
A primeira vez que se encantou com uma peça de teatro.
A primeira vez que lhe vi um dente.
A primeira vez que, tardiamente, rodou.
A primeira colher de puré de cenoura.
A primeira colher de iogurte.
A primeira vez que disse mamã.
A primeira vez que disse mamã intencionalmente.
A primeira vez que disse papá.
A primeira vez que gatinhou.
A primeira vez que andou (fiquei em êxtase porque não o julgava tão hábil).
A primeira vez que fez uma torre com brinquedos.
A primeira vez que foi à estante dos livros e sozinho o folheou.
A primeira vez que gostou de calcar a areia e de molhar os pés no mar.
A primeira vez que me abraçou, com força, dando-me palmadinhas nas costas.
A primeira vez que me colocou as mãos, lado a lado, na cara e me fixou os olhos.
A primeira vez que me beijou.
A primeira vez que repetiu o beijo.
A primeira vez que deu a chupeta ao Peter.
A primeira vez que disse tudo o que já diz: cá (carro), tocá (autocarro) má (máquina), bó (bola), alua (lua), cão (o animal), cão (chão), não, bô (bolo), geado (gelado), olá, abu (avô), abó (avó), Ana, Joana, Margaid (Margarida), Maía (Maria), tótó,  tiangulo (triângulo), cadado (quadrado), circ (círculo), amalelo (amarelo) a-zul (azul), laanja (laranja), vemel (vermelho),  atémanhã (até amanhã), então, manga, gute (iorgurte), caninha (carninha), massa, arru (arroz) …
A primeira vez que bateu os pés quando lhe disse para nadar na banheira.
A primeira vez que fez uma birra a sério.
A primeira vez que terminou uma frase da minha mãe com um “está bem?”.
A primeira vez que respondeu ao brinquedo bilingue “bye bye”
A primeira vez que, numa frase comprida e imperceptível, disse “alua amanhã”, depois de lhe ter dito que naquela noite a lua estava escondida mas que no dia seguinte já seria visível.
A primeira vez que riu às gargalhadas com uma palavra nova, como calmex, a sério? ou leleco (personagem da novela).
A primeira vez que partilhou um brinquedo com o Gonçalo, para logo se arrepender.
A primeira vez que dançou de alegria ao ver o primo Diogo.
A primeira vez que chorou por querer despedir-se da prima Margarida.
A primiera vez que, vendo uma fotografia da Maria, choramingou, passando as mãos na foto, nesse gesto tão fofo que usa para pedir.
A primeira vez que chegou à sala com a caixa do gelado, esquecida na cozinha, pedindo “maiis”.
A primeira vez que me disse, preparando-o para ir para a cama, “ainda não”.
A primeira vez que, de manhã, na nossa cama, ainda meio a dormir disse “mamã, papá”, rodando os braços para nos tocar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#18

Quando ouvimos da sua boca, assim, sem ninguém lhe perguntar nada, no meio de palavras imperceptíveis, isto: “mamã totó, papá totó”.

Sim, lá em casa somos todos da mesma espécie.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A tarde mágica


Era uma tarde normal, 5 crianças e um bebé (o meu ainda é bebé, não é?).
Trocámos os jogos de computador, os carrinhos e o conforto da sala pela floresta.
Já não era cedo, o dia tinha-se posto cinzento, a luz não tinha aquela cor matinal que encontrei no local aquando da primeira visita. Mas este sítio, em Sintra, a caminho da Peninha e dos Capuchos, é inevitavelmente encantador com qualquer luz, a qualquer hora do dia.
Preparei tesouros doces e um lanche comum.
O que fez a diferença foi a manta que trago sempre no carro, estendida, permitindo um pic-nic improvisado. Comer sentado à chinês, com o cheiro da terra e das heras mais perto fez mesmo toda da diferença.
O que fez a diferença foi esconder os tesouros entre as pedras e o verde e deixá-los correr.
O que fez a diferença foi a minha descrição do local.
Ainda em viagem falei-lhes de que aquela floresta era mágica, porque só em sítios brindados pela magia as heras trepam as árvores e o silêncio se abate sobre nós como o melhor som de sempre. Falei-lhes de fadas, com o olhar inquisidor do Miguel por achar que o meu afilhado já tem idade suficiente para saber que elas não existem. Falei-lhes do encanto que só se encontra nos filmes ou nos livros de contos, mas que ali se revela em cada folha, em cada fio de luz por entre as árvores, em cada som…

O que fez a diferença foi tão pouco. Mas deu-nos tanto.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Senti nas mãos a minha avó

Ontem senti nas mãos a minha avó Belinha.

A minha avó Belinha não me viu crescer de perto, apesar de as nossas casas estarem a não mais do que 15 minutos de carro. Não fez bolos comigo. Não me beijou sem razão.
Tenho pena que assim tenha sido.
Mas não me sinto responsável por isso.
Porque, apesar de a vida se ter traçado assim, sempre ouvi com curiosidade as histórias que tanto gostava de contar dos seus tempos de mulher bonita (e tão bonita que foi, dando razão ao nome pelo qual a chamavam), as histórias do meu pai, as histórias do meu avô, de quem se divorciou num tempo em que não se permitia às mulheres fazerem-no.
Porque, apesar de a vida se ter traçado assim, por várias vezes lhe fiz a sobremesa que queria ou, mesmo sem me pedir, os scones de que tanto gostava.
Porque, apesar de a vida se ter traçado assim, sempre insisti para que o meu pai fosse mais presente.
Arrependo-me apenas de não ter acedido ao seu pedido de me arranjar as unhas no dia do meu casamento.
A minha avó era pedicure. A melhor que conheci. Trabalhou anos num salão, continuou a fazê-lo em casa para as clientes mais fiéis. Arranjou-me os pés várias vezes, ensinou-me truques preciosos, principalmente para quem, como eu, tanto sofre dos pés.
Ontem uma das minhas unhas deu sinais da falta da intervenção da minha avó. Fiz exactamente o que me ensinou (poupo os detalhes menos agradáveis). Parece-me perfeito o resultado. Só porque tive nas mãos a minha avó, por um bocadinho.