segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Não dá para esconder que tens um filho pequeno...#20

Quando às 22 horas de Domingo, com um frio cortante, reúnes a família na varanda para fazer bolas de sabão.

Tudo tem uma explicação.
No início da semana o Pedro encontrou um frasco de bolinhas de sabão lá em casa. Expliquei-lhe que não as podia fazer dentro de casa e que por isso no fim-de-semana iríamos até ao jardim para as fazer. Nos dias seguintes, sempre que via o dito frasco dizia-me “no fim semana” e eu confirmava-o. O fim-de-semana chegou e eu nunca mais me lembrei das bolas de sabão. Até que o Pedro me avivou a memória ao ver a minha fotografia do telemóvel, em que eu estou exactamente com ele a fazer bolas de sabão. Porque as promessas não se quebram, mesmo que a criança não saiba se é ou não fim-de-semana, vestimos um kispo e um gorro ao pequeno e foi vê-lo numa alegria contagiante a correr atrás das bolsas. E o bónus? Contra as expectativas do pai, não fez birra para voltar para dentro.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ana, a criança

É sempre surpreendente o discurso de uma criança. As suas convicções, alicerçadas numa ingenuidade que lhe é própria, são deliciosas. O seu raciocínio é fascinante. As suas deduções são encantadoras.

Ouço muitas histórias dos meus tempos de criança, mas os meus pais não têm um livrinho, como eu pretendo ter para o Pedro, para registar as melhores saídas de sempre.
Eu, como criança era como todas as outras: surpreendente!
Como referi no post anterior, acreditei durante muito tempo que o meu avô tinha o seu rosto pintado na parede exterior do prédio. Ele era ou não era a pessoa mais importante daquele prédio? Mais tarde percebi que era o Vasco da Gama, nome escolhido para o edifício.

Ao atravessar de carro a ponte móvel de Matosinhos a minha mãe dirigida ao meu pai dizia “olha, Abílio, olha.”, ao que respondi, “mãe, o pai parece cego, mas não é.”

Durante muito tempo acreditei, por sugestão de um tio avô, que a minha mãe já tinha sido preta e portadora de uma bela carapinha e que a mudança se tinha dado quando passou a linha do equador, quando deixou Angola, o país onde nasceu.  

Com 3 ou 4 anos caí da altura de um primeiro andar. Rachei a cabeça. O aparato foi grande. A lesão nem tanto. Quando fui encaminhada para o RX, acompanhada pela minha mãe, o médico perguntou-me “o que é me contas?” e eu respondi “a minha mãe tem um sapato de cada cor, um azul e outro preto.” (era verdade, com a aflição a minha mãe calçou sapatos de pares diferentes). O médico disse à minha mãe “ a menina está óptima, não se preocupe.”

Em miúda tinha muita dificuldade em articular a palavra pontapé (não consegui mesmo perceber a dificuldade, mas lembro-me que me saía algo muito estranho). Para evitar constrangimentos, passei a designar o pontapé como o “murro com o pé”. 

Desisti do ballet cedo. No final de cada aula havia um momento livre em que supostamente cada menina não obedecia a comandos e expressava livremente a sua criatividade. Numa das primeiras aulas quis ficar sentada no meu momento livre. A professora não entendeu o meu argumento: se era para fazer o que quiséssemos, eu queria fica sentada…

A primeira vez que fui com os meus pais ao continente de Vila Nova de Gaia a viagem pareceu-me longa de mais. À minha mãe também. Disse-lhe, convicta, que estaríamos a chegar porque na placa indicava “Gaia. Despesas.” (na verdade a placa dizia Gaia. Devesas).

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Poveirinha

Hoje recebi um email com imagens da cidade onde nasci. Imagens de um tempo que me antecede. Ainda assim, essa cidade onde nasci por acaso (ou não), é hoje tão diferente…

Póvoa de Varzim. Em todas as estações. Passei quase todos os fins-de-semana da minha infância em casa dos meus avós. Nas férias grandes, várias semanas eram escolhidas para que evitasse as doenças de Inverno nessa praia de areia grossa e de mar revolto. As memórias que tenho da infância esbarram com as memórias que tenho da Póvoa.

A Póvoa na Primavera. Nesse jardim junto ao apartamento dos meus avós. Com o meu primo irmão, a correr. A convicção durante anos de que a imagem à saída do prédio era a do meu avô. Sim, porque, aos meus olhos (ou direi ao meu coração?), o meu avô era importante ao ponto de ter o seu rosto pintado na parede do prédio.

A Póvoa no Verão. Calor. Tantos primos que se encontravam no apartamento dos meus avós. Tanto calor. O caminho para a praia. Um labirinto nas traseiras de um prédio que não era o nosso mas que visitávamos às escondidas dos meus avós. O som das rãs. O cheiro das rãs. Sou de um tempo (nunca pensei dizer isto) em que em vez de prédios, a caminho da praia, havia um lago gigante cheio de rãs. Penso agora que talvez fosse fruto da construção que se adivinhava ou o que teria ficado de uma obra embargada. Mas ao tempo era tão só o lago das rãs. A praia, único lugar onde tinha uma barraca reservada. Beijinhos e estrelas do mar. Um corneto de morango à saída. Melaço nas mãos e salitre nas costas. Nos dias mais longos, era-nos permitido um gelado extra depois do jantar. Vinha o meu avô carregado com os pedidos dos netos e um super maxi para a minha avó.

A Póvoa no Outono. As folhas secas à porta do prédio. O vento. Tanto vento. A história de que por causa do vento a minha mãe recebera um casaco de pele quando na Póvoa se instalaram vindos de Angola.

A Póvoa no Inverno. No dia em que nasci. Em todos os outros. Ouvir a minha mãe dizer que era assim que adorava a Póvoa. A ver a chuva cair no vidro do carro junto ao mar. Na véspera de Natal. Em todas as manhãs de Domingo que saía da minha cama e me enroscava no meio dos meus avós. Voltava a adormecer embalada pelo som dos cascos dos cavalos que puxavam as carroças. Tenho tantas saudades desse som. Sim, porque sou do tempo em que as carroças abundavam na Póvoa.

O sítio onde nascemos faz-nos. Também. Cresci a ouvir dizer que era mesmo Poveirinha. Refilona. Sem papas na língua. Eu, Poveirinha. Em todas as estações. Feita dessa cidade que só era minha ao fim-de-semana, mas que me tinha todos os dias por causa dos meus avós.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Os 4 corações

Há uns dias encontrei-me por acaso com 4 corações. Os 4 numa montra de uma loja. Com umas frases pintadas em francês, essa língua que não domino. Um dizia algo como a minha primeira pulseira do hospital, o outro a primeira madeixa de cabelo, outro ainda o primeiro dente de leite e o quarto não conseguia chegar lá. "Porte bonheur"... A internet salva-nos sempre. Seria a caixinha para guardar a primeira lembrança da sorte, de protecção, como uma figa ou um trevo. Trouxe os 4 corações para casa. Coloquei a pulseirinha do hospital no coração respectivo. Guardei dois deles porque me separam anos da queda do primeiro dente de leite e porque o cabelo do Pedro teima em não crescer. No coração do "porte bonheur" coloqui a mola com o cordão umbilical do Pedro. Coube na perfeição. E não é que faz todo o sentido?! Há maior protecção do que aquela que nos chega por esta ligação inviolável e intra-uterina?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#19

Quando o que seria motivo de orgulho e prova de criatividade
É mesmo a cadeira da sala de jantar...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A primeira vez

O que é mais surpreendente num filho é a quantidade de “primeiras vezes” que nos ficam agarradas à memória e ao coração. Vivo em espanto. Com tudo o me dá pela primeira vez, com tudo o que faz pela primeira vez.

Não me esqueço de tantas primeiras vezes. Ainda lhes sinto o cheiro, a confusão das cores, os paladares, o coração a bater mais depressa. Tudo por causa deste amor à primeira vista.
A primeira vez que o vi, tão cor-de-rosa.
A primeira vez que o alimentei, a boca na minha pele.
A primeira vez que vi o Miguel a dar-lhe banho.
A primeira vez que sorriu.
A primeira vez que se deixou fotografar profissionalmente.
A primeira vez que mergulhou na piscina.
A primeira vez que se encantou com uma peça de teatro.
A primeira vez que lhe vi um dente.
A primeira vez que, tardiamente, rodou.
A primeira colher de puré de cenoura.
A primeira colher de iogurte.
A primeira vez que disse mamã.
A primeira vez que disse mamã intencionalmente.
A primeira vez que disse papá.
A primeira vez que gatinhou.
A primeira vez que andou (fiquei em êxtase porque não o julgava tão hábil).
A primeira vez que fez uma torre com brinquedos.
A primeira vez que foi à estante dos livros e sozinho o folheou.
A primeira vez que gostou de calcar a areia e de molhar os pés no mar.
A primeira vez que me abraçou, com força, dando-me palmadinhas nas costas.
A primeira vez que me colocou as mãos, lado a lado, na cara e me fixou os olhos.
A primeira vez que me beijou.
A primeira vez que repetiu o beijo.
A primeira vez que deu a chupeta ao Peter.
A primeira vez que disse tudo o que já diz: cá (carro), tocá (autocarro) má (máquina), bó (bola), alua (lua), cão (o animal), cão (chão), não, bô (bolo), geado (gelado), olá, abu (avô), abó (avó), Ana, Joana, Margaid (Margarida), Maía (Maria), tótó,  tiangulo (triângulo), cadado (quadrado), circ (círculo), amalelo (amarelo) a-zul (azul), laanja (laranja), vemel (vermelho),  atémanhã (até amanhã), então, manga, gute (iorgurte), caninha (carninha), massa, arru (arroz) …
A primeira vez que bateu os pés quando lhe disse para nadar na banheira.
A primeira vez que fez uma birra a sério.
A primeira vez que terminou uma frase da minha mãe com um “está bem?”.
A primeira vez que respondeu ao brinquedo bilingue “bye bye”
A primeira vez que, numa frase comprida e imperceptível, disse “alua amanhã”, depois de lhe ter dito que naquela noite a lua estava escondida mas que no dia seguinte já seria visível.
A primeira vez que riu às gargalhadas com uma palavra nova, como calmex, a sério? ou leleco (personagem da novela).
A primeira vez que partilhou um brinquedo com o Gonçalo, para logo se arrepender.
A primeira vez que dançou de alegria ao ver o primo Diogo.
A primeira vez que chorou por querer despedir-se da prima Margarida.
A primiera vez que, vendo uma fotografia da Maria, choramingou, passando as mãos na foto, nesse gesto tão fofo que usa para pedir.
A primeira vez que chegou à sala com a caixa do gelado, esquecida na cozinha, pedindo “maiis”.
A primeira vez que me disse, preparando-o para ir para a cama, “ainda não”.
A primeira vez que, de manhã, na nossa cama, ainda meio a dormir disse “mamã, papá”, rodando os braços para nos tocar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#18

Quando ouvimos da sua boca, assim, sem ninguém lhe perguntar nada, no meio de palavras imperceptíveis, isto: “mamã totó, papá totó”.

Sim, lá em casa somos todos da mesma espécie.