O Sábado começou como qualquer outro Sábado, sem que o Pedro pudesse perceber o que significa fazer dois anos. Apesar de responder prontamente “dooois” quando lhe perguntávamos quantos anos fazia, sei que respondia apenas porque assim lhe foi ensinado. Ignora o que o dia 16 de Março nos traz, a comoção com que as 11h31m daquele dia cinzento nos passou a amarrar os sentimentos, as vezes que o relembro acabado de nascer. Ignora como um dia, como outro qualquer, passou a ser, para lá do dia da sua vida, o dia das nossas vidas.
Ignora que as lágrimas me vieram aos olhos quando, nesse Sábado, no momento em que debrucei na banheira para lhe molhar o cabelo, me disse, sem que lhe tivesse feito qualquer pergunta, “a mamã é linda”. Disse-o assim, tal e qual, e nesse preciso momento senti-o em jeito de agradecimento. “Sim, sou linda, meu amor, passem os anos que passarem, sou linda por te ter dado vida. A minha beleza está marcada na cicatriz que me ficou para te ver nascer, e nos teus olhos, na tua boca, no teu queixo, na tua pele, nas tuas palavras, nos teus abraços apertados, no teu mexer do meu cabelo, na forma como cabes tão bem no meu colo.”
Por tudo o que o Pedro é, depois de eu ter passado o dia na cozinha a fazer o bolo de aniversário, o jantar e a sobremesa, não lhe podia recusar nenhum desejo quando acordasse da sesta. Acordou e pediu-nos para ir ao Porto. O dia não estava perfeito para passeios, mas com dois anos a chuva tem encanto, passear com guarda-chuva tem encanto. Quisemos subir aos Clérigos, para assim poder ter todo o Porto nos seus olhos, mas, apesar da nossa insistência, o Pedro dizia “não quero subir, quero passear”. Assim foi.
Por tudo o que o Pedro é, preparamos-lhe uma surpresa com balões luminosos no momento de cantar os parabéns. Ficou tão feliz, mas tão feliz. Nesse preciso momento percebi como conheço tão bem o meu filho. Tal era a alegria que não tivemos coragem de os lançar todos à lua. Ficaram-lhe nas mãos, rentes ao coração.
No final da festa o Pedro chorou, repetia “mais festa, mais festa”. E, como disse, isso basta-me.
O Domingo começou como outro Domingo qualquer. Já não chovia e ao abrir a janela do quarto, porque o sol era explícito, o Pedro pedia “vamos à praia, vamos ao parque.” Por tudo o que o Pedro é, apesar de termos uma festa enorme para preparar, não lhe recusamos o desejo e fomos ao parque.
À tarde, nesse dia 17, exactamente dois anos depois de o Pedro ter conhecido o seu amigo de sempre, festejamos juntos, com os amigos, o 2º aniversário dos dois “pimos”. Como se trata de uma amizade vivida ao pormenor, criámos uma festa pensada ao pormenor. Foi perfeito. Perfeito mesmo. Ainda me impressiona a amizade dos dois, ainda me impressiona como nós, as mães, somos tão parecidas nesta coisa de nos darmos ao trabalho, ainda me impressiona como os pais, apesar de não serem amigos de infância, quase o parecerem.
No final da festa o Pedro, mais uma vez, chorou e repetia “mais
festa, mais festa”. E, como já disse, isso basta-me.
No final da festa, eu estava verdadeiramente feliz. Talvez
também tenha chorado, de genuína alegria.
