terça-feira, 5 de novembro de 2013

O que está antes de nós - II

Antes de mim ou dos meus filhos, o amor...

O meu bisavô era ainda jovem, estudava no terceiro ano do curso de medicina, vivia com os seus pais em Portugal.
Prometeram-lhe uma noiva mas o meu bisavô preferiu acreditar no amor. No amor, na sua forma mais abstracta.
O meu bisavô não aceitou casar com a noiva escolhida. Rejeitou a imposição da família e fê-lo, não por amar outra pessoa, mas por acreditar no amor.
Num amor que viria a chegar num outro continente, para onde foi, deixando tudo, a família, os estudos, as certezas.

A nossa família só existe porque o meu bisavô acreditou no amor.
A história da nossa família é (também) uma história de amor.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O que está antes de nós - I

Nas pesquisas que ando a fazer para completar um livro sobre a história familiar do Pedro, descobri pequenas coisas sobre os meus (nossos) antepassados que me deixaram comovida.
E são só pequenas coisas...

O meu tretravô era marinheiro.
Eu nasci em terra de marinheiros, a minha infância foi passada com salitre no corpo e maresia nos cabelos. E, ainda assim, o mar nunca me foi muito próximo. Não o é, pelo menos, na minha vida adulta. Há anos que não dou um mergulho no "mar do Norte".
Mas o meu Pedro, ooh, como eu noto que o corpo do Pedro é um corpo de marinheiro, que se atreve nas ondas, que se bate com bravura contra o frio do mar, que se encoraja nas rochas, que apanha peixinhos com as mãos com uma habilidade surpreendente.
Eu sei que o Pedro é uma criança, só uma criança. Que é por ser criança que não teme as ondas nem o frio, que é por ser criança que não tem consciência de que não se pode roubar a água aos peixes e trazê-los na mão.
Mas quando soube que o meu tretravô era marinheiro, num escrito que a minha mãe e a minha avó ignoravam, comovi-me. Porque o que está antes de nós, às vezes, faz tanto sentido...
Talvez o que está antes de nós tenha o sentido que nós lhe queremos dar. Ainda assim, faz todo o sentido. E isso deixa-me mesmo feliz.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Uma ideia brilhante

"Uma ideia brilhante"
Foi o título que escolhi para a história que escrevi para ir ler à escola do Pedro. Uma história sobre um farol e pirilampos, com o protagonista Pedro, mas que cada um dos meninos levou para casa consigo no papel principal. Uma história só escrita e não ilustrada, porque o desenho não é o meu forte, e que, por isso, me obrigou a carregar um quadro enorme, com o mar, o barco e o farol da história. E a desvendar um frasco cheio de folhas, leds a piscar e grilos de plástico (porque crianças com 2 anos não distinguem pirilampos de grilos) e que fez as delícias dos mais novos, principalmente do meu, que à noite, porque os leds pirilampos continuavam a piscar, quis adormece-los no seu abraço nocturno.
Depois da leitura, veio a hora de cada um dos meninos ilustrar o seu livro. Como me derreteu que muitos dos meninos desenhassem o mar, o farol ou o faroleiro, mas também baleias e aranhas que não entravam na história. Mas com 2 anos tudo cabe em cada história.
Depois de concluída a actividade, pude brincar em cada um dos espaços daquela sala, conhecer de perto o que o Pedro me descreve tantas vezes, e ver-me obrigada pelo meu pequeno a ocupar o lugar da educadora na roda que fazem todos os dias.
Teria sido uma manhã perfeita.
Só não esperava que mal me visse a entrar, o Pedro antecipasse o meu regresso à rotina, com um choro contido e a voz trémula. Durante grande parte do tempo, o Pedro pouco mais disse do que "a mamã não pode ficar muito tempo, vai ter que ir trabalhar". Durante grande parte do tempo, o meu filho não me soube gozar plenamente, com o receio de chegar a hora de eu ir embora.
E quando fui, finalmente, chorou como nos primeiros dias de escola. Se assim não fosse, teria sido uma manhã perfeita.
O que me surpreendeu, também, é que o seu amigo Diogo, chorava também, um choro mais contido, pequenino, repetindo "Não vás, não vás". E não era um choro pela minha ausência, era, claramente, um choro solidário com o do seu amigo.
E quando isto acontece aos dois anos, é impossível, apesar de tudo, não achar que foi uma manhã perfeita.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Deitar cedo e cedo erguer...

Levantei-me porque ouvi o pequeno tossir.
Achei-o transpirado. Mudei-lhe o pijama. O pequeno continuou a dormir.
Voltei para a cama.
Levantei-me mais três vezes por causa da tosse.
O pequeno sempre a dormir. O maior também.
Tentei triturar sementes de linhaça com a varinha mágica. Não consegui.
Lavei a Bimby.
Triturei as sementes com a Bimby. Resultou.
Comi um iogurte com as sementes trituradas. Gostei. 
Voltei para a cama.
Todos continuavam a dormir.
Fui buscar água. Bebi meio litro.
Tomei banho.
Arrumei a roupa passada a ferro.
Voltei para a cama. Todos continuavam a dormir.
Vi os 60 minutos e três séries na fox life.
Levantei-me. Tomei o pequeno almoço. Arranjei-me. Vesti-me.
Fui para Santo Tirso. São 8h30 e estou a chegar a Barcelos. 

Dá para perceber que foi a maior insónia da minha vida? 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Das coisas improváveis desta gravidez

-às 18 semanas de gravidez, uma pessoa conhecida vê-me sentada e diz-me que estou mais magra (não estou!)
-tenho um dente do siso a nascer.
-às 21 semanas de gravidez continuo a dormir de barriga para baixo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Este meu amor que é mais meu -II

Esta minha filha é mais minha do que de qualquer outra pessoa.

Pouco tempo depois do nascimento do Pedro, a propósito da gravidez de alguém que me é próximo, disse aos meus pais que não lhes perdoaria se, numa segunda gravidez minha, não “vibrassem” como na gravidez do Pedro, que não lhes perdoaria se sentisse que o meu segundo filho era menos do que o primeiro.
Mas os avisos de nada adiantaram. Contámos a notícia de uma forma bonita, planeada, por ocasião de um outro festejo, mas não houve abraços efusivos nem lágrimas nos olhos como da primeira vez.
Eu bem sei que também eu recebi a notícia de forma bem mais tranquila, mas senti-me verdadeiramente feliz, com a mesma vontade de contar ao mundo, com a mesma vontade de abraçar tudo e todos.

Confesso que fiquei desiludida com a reacção dos meus pais. Disse-lhes isso dias mais tarde e apesar da recusa de qualquer tratamento discriminatório, sinto esta gravidez de forma absolutamente diferente aos olhos dos outros.
Esta minha filha não tinha com 10 semanas de vida caixas e caixas de roupinha. Esta minha gravidez não teve uma peça importante oferecida pelos meus pais para a simbolizar. As consultas desta gravidez já ficaram marcadas por uma falta do pai (eu sei, Miguel, que ficaste triste) e por um atraso a outra tão grande que eu tive que ir ao ecógrafo duas vezes na mesma consulta. Esta minha filha não ouve o pai todas as noites, naquele sussurro que era um hábito na gravidez do Pedro.

E custa-me ainda mais pensar que hoje as coisas são mais equilibradas porque esta minha filha é uma menina. Porque só quando soubemos que era menina é que os ânimos dos outros melhoraram. Se esta minha filha fosse um menino, seria ainda mais meu filho do que de todos os outros.
Esta minha filha é mais minha.  É assim que o sinto (pelo menos), agora.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Todo o dia

Dei por mim a pensar que as primeiras letras dos nomes próprios dos meus filhos identificam os dois períodos de 12 horas de cada dia. E que juntos, PM e AM, formam os nossos dias.