sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ambiguidades

O que eu gosto mais na minha profissão é o sentimento de que uma acção minha mudou a vida de uma pessoa.
Fico orgulhosa quando ganho uma acção, quando penso numa solução jurídica para um problema, quando resolvo um conflito, quando acerto.
Mas o que eu gosto mesmo na minha profissão é fazer a diferença na vida de uma pessoa.
Ontem foi um dia assim. Trabalhei muito, muito mesmo, e ao fim de 7 horas tinha mudado a vida de uma pessoa. E não há nada que se compare ao calor de umas mãos a agarrarem as nossas, como se fossemos mais do que realmente somos. Não há nada que se compare a ver a pessoa voltar para trás, mais uma vez, só para nos agarrar as mãos, em jeito de agradecimento.

Ainda assim, quando hoje levei o meu filho a uma sala de audiências, quando lhe mostrei onde a mamã trabalha, quando, atenta a insistência dele de que também queria "atender pessoas", uma funcionária lhe deu um processo para a mão para que percebesse um pouco mais que a mamã lida com papéis, muitos papéis, sem as ilustrações coloridas a que está habituado, desejei, em voz alta, que não seguisse as pisadas da mãe.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Está na hora

Os dois adormeceram juntos, com toda a logística que isso implica (um braço aqui, um pé ali, para evitar contactos mais violentos, ainda que involuntários, do Pedro à Ana).
De manhã, a primeira coisa que o Pedro me disse foi: " a mana não dormiu no meu quarto".
Pois não, meu amor, e está na hora, está mesmo na hora. Por ti, por ela e por nós.

Miguel, este post é especialmente dirigido a ti e à tua caixa de ferramentas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Das manhãs perfeitas

Quase todas as manhãs começam com uma correria e não estou a falar de desporto.
Quase todas as manhãs levanto-me bem mais tarde do que devia, chego sempre mais tarde do que seria suposto ao escritório.
Quase todas as manhãs as camas ficam por fazer, os carros espalhados pelo chão, a loiça do pequeno-almoço em cima da mesa.
Quase todas as nossas manhãs vos poderiam parecer o caos. Se alguém tocasse à campainha pelas 9 horas, perceberia que ali vive uma família ainda desorganizada a 4.
O que ninguém sabe é que antes do caos, ali vive uma família verdadeiramente feliz.
Ontem, depois de uma noite inteira de sono (o que é ainda raro, raríssimo), a Aninha enroscou-se no meu peito e ali ficou acordada. Contemplei-a durante cerca de 30 minutos, senti-lhe as unhas finas no meu peito, a respiração serena no meu pescoço, o cheiro quente que é só dela. Acabou por adormecer, da melhor forma que encontra, junto a mim.
Nem um minuto depois, ouvi o Pedro chamar-me. Pediu-me leite na cama e que eu ficasse ali, junto a ele. Foram os seus 30 minutos de mimo, de histórias sobre lobos, sobre carros, sobre quando eu era pequenina. O meu filho nunca é tão meigo como ao acordar. Aprendeu comigo a dizer o que sente, a abraçar e a beijar e quando o faz melhor não é quando eu regresso do trabalho, mas quando ele regressa dos sonhos.
Ontem não pude ainda regressar à minha cama para um abraço ao Miguel, porque excepcionalmente o Miguel saiu cedo, muito cedo. Mas tenho sempre esta sensação de abraço matinal, quando o despertador já tocou várias vezes, e quando adiamos mais uma vez o toque para que o abraço se prolongue por mais um pouco. Como hoje.
As nossas manhãs são um caos, é verdade. Mas antes de tudo isso, são perfeitas.
E hoje é só dessa parte que me consigo lembrar.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Colo

"o melhor lugar que você irá conhecer é esse. O colo da sua mãe. Tudo que acontecerá depois será a constante busca pela repetição do conforto, aconchego, amparo, proteção que existe aí. Os abraços dos seus irmãos, serão. A mão da sua tia, será. Os carinhos cuidadosos da sua avó, do seu avô, serão. O olhar amoroso dos seus padrinhos, será. Essa constante busca pelo colo mágico da sua mãe acompanhará sua existência nos seus amores, nas pessoas que compreenderem essa coisa difícil que é ser companheiro, estar disponível, ouvir os seus chamados. Lá na frente (não dá para ver ainda, é depois da última curva que vemos agora), lá na frente, no futuro, você poderá até oferecer o seu colo para sua mãe. O mundo aparentemente inverte a gente, quando convém. E o mais engraçado é que, ainda que nessa situação, mesmo sem que você saiba, é o colo dela que estará a serviço do seu choro, da sua angústia, das suas emoções e razões. O Cacá, seu pediatra, diz sempre: "ela é uma bebê de colo", para dar início às fabulosas aulas de vida (ele nos dá várias, a cada encontro). Aproveite, filha. Contemplar um pôr-do-sol no colo da sua mãe é provavelmente a melhor coisa que pode acontecer num dia comum como ontem. Ou hoje. E amanhã."

Escrito pelo Pai Pedro.
Tropecei neste texto por causa da Macaca.
E disse-me tanto.
A minha filha é uma bebé de colo. Do meu colo. Desde o primeiro momento em que o conheceu. E se, às vezes, me dava jeito que não estranhasse os colos de quem a ama, ao mesmo tempo dá-me vaidade que a minha pequenita, tão pequenita, o sinta especial, o sinta como o melhor lugar que irá conhecer. Porque é um lugar onde pode regressar sempre. Porque é do melhor que lhe posso oferecer.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#31

O meu filho é mesmo uma criança...

Um dia destes, o Pedro oferecia-me a parte amarela de um húngaro (a parte de chocolate comeu-a ele) e eu dizia-lhe: "a mamã não pode, está em dieta"
Pedro: O que é dieta?
Eu: É ter cuidado com o que como, para ficar magrinha.

Dois dias depois...
Pedro: A mamã está em dieta, tem cuidado com o que come.
Eu: Pois é. E para quê?
Pedro: Para ficar grande!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

No melhor o pior

Nesta mais recente maternidade não tive ataques de choro como na primeira, não senti oscilações hormonais que me fizessem parecer bipolar. Nesta mais recente maternidade só chorei por causa do Pedro.
Depois de uma reacção doce durante toda a gravidez, depois de uma reacção eufórica, plena de felicidade, no dia em que conheceu a irmã, o Pedro revelou-se zangado, irritado, furioso até.
Eu contava com ataques de ciúmes contra a Ana Miguel, com retrocessos aqui e ali, mas não contava que dirigisse toda a sua instabilidade contra nós, pais. E nós, que nos desdobrámos para que não sentisse diferença nas rotinas, que nos multiplicámos para lhe dar todo o mimo ( e muito mais), nós éramos para ele o inimigo!
Durante 8 dias o Pedro deixou de dizer, como sempre disse, que me adorava. Durante 15 dias não quis a nossa ajuda no banho, na hora de beber o leite, não quis que participássemos nas suas brincadeiras. Chegou mesmo a dizer que queria que nós fossemos embora e que ele ficava sozinho com a mana.
Tudo isso doeu mais do que podia imaginar, não por pensar que algo tinha mudado na nossa relação mas por ser um reflexo do seu sofrimento imenso.
O Pedro deitou-se várias vezes a chorar e ele não sabe que, enquanto lhe apertava o corpo contra o meu e lhe beijava a testa, também eu me deitava a chorar.
O pior já passou e gosto de pensar que as coisas voltaram à normalidade. Mas há retrocessos num dia ou noutro. São esses dias que me lembram que o melhor que pude fazer pelo meu filho lhe trouxe também o pior. São esses dias que não me fazem esquecer que os dias mais felizes da minha vida foram também os mais duros.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Dos sorrisos de sexta-feira

Na sexta-feira passada saí a sorrir da casa dos meus pais. O meu almoço rápido na casa que ainda é minha e o almoço mais demorado da minha pequena (porque é sempre mais demorado se o faz directamente da fonte) podiam ser a razão, mas não. O sol e a temperatura amena, a proximidade do fim-de-semana podiam ser a razão, mas não.
Saí a sorrir por causa dos meus pais. Pelo amor que lhes vejo em tantos gestos, pela dedicação que lhes encontro no jeito com que também criam os meus filhos e pela harmonia que lhes sinto, a dois, quando os netos estão por perto.
Nessa sexta-feira, durante o meu almoço rápido, o meu pai colava cromos numa caderneta para o Pedro e a minha mãe embalava a Ana. Porque a colecção dos cromos ainda vai a meio, o meu pai adiantou que sairia, quando eu saísse, para comprar mais carteirinhas de cromos. E eu sugeri que o meu pai deixasse o carro em casa e fosse a pé, levando o carrinho da Ana e a minha mãe a seu lado.
E assim foi, na sexta-feira passada, os meus pais saíram a pé (quem conhece o meu pai sabe que tal é um feito!), lado a lado, empurrando a minha filha no carrinho. Sorriam os 3. Sorria também eu.