O nosso Verão começou em casa, sem pressas, com a introdução da sopa à Aninha e com a certeza de que nós, como família, aprendemos definitivamente a rir das dificuldades.
Os meus filhos nascem sem o gene mais precioso do pai (estou a brincar, Miguel), que é aquele que o faz comer de tudo e sempre com muito pouca moderação.
Mas ao contrário do que fizemos com o Pedro, deixámo-nos de estratégias pouco ortodoxas e optámos por fazer tudo com mais calma e com a certeza de que o tempo tudo resolverá. No final de cada refeição, rimo-nos (durante também), tiramos fotografias e levamos a pequena para a banheira.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
O nosso Verão
O nosso Verão durou 15 dias, os dias de férias que nos couberam. Talvez o nosso Verão tenha durado mais tempo, porque o que nos deu fará, seguramente, a diferença em cada dia que se segue.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
*
Tenho 3 amigas que o são desde sempre. Já escrevi sobre isso.
Tenho 3 amigas que são minhas irmãs.
Como nos conhecemos desde sempre, às vezes, quando estamos as 4, é como se o tempo tivesse parado e nós não somos adultas, não trazemos filhos ao colo, cabelos brancos, algumas rugas, responsabilidades profissionais... Quando estamos as 4 lembro-me de nós como sempre fomos, crianças, adolescentes, livres, genuinamente felizes, cinematograficamente dramáticas (ui, como eu era dramática), sem que ninguém nos faltasse.
Em tantos anos de amizade, todas nós passamos por momentos difíceis, todas nós tivemos juntas num abraço, num beijo, num consolo.
Mas desta vez foi diferente. Naquele exacto momento em que 3 de nós suportavam nos braços a dor de quem via o pai deixar o último lugar que conheceu, naquele exacto momento em que a porta se fechou e só se ouvia silêncio e choro, estarmos as 4, só as 4, juntas, fez-me perceber como já somos adultas.
Porque é uma perda que só se deve ter na vida adulta.
Porque, naquele exacto momento, não nos vi como na infância.
Tenho 3 amigas que são minhas irmãs.
Como nos conhecemos desde sempre, às vezes, quando estamos as 4, é como se o tempo tivesse parado e nós não somos adultas, não trazemos filhos ao colo, cabelos brancos, algumas rugas, responsabilidades profissionais... Quando estamos as 4 lembro-me de nós como sempre fomos, crianças, adolescentes, livres, genuinamente felizes, cinematograficamente dramáticas (ui, como eu era dramática), sem que ninguém nos faltasse.
Em tantos anos de amizade, todas nós passamos por momentos difíceis, todas nós tivemos juntas num abraço, num beijo, num consolo.
Mas desta vez foi diferente. Naquele exacto momento em que 3 de nós suportavam nos braços a dor de quem via o pai deixar o último lugar que conheceu, naquele exacto momento em que a porta se fechou e só se ouvia silêncio e choro, estarmos as 4, só as 4, juntas, fez-me perceber como já somos adultas.
Porque é uma perda que só se deve ter na vida adulta.
Porque, naquele exacto momento, não nos vi como na infância.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Ambiguidades
O que eu gosto mais na minha profissão é o sentimento de que uma acção minha mudou a vida de uma pessoa.
Fico orgulhosa quando ganho uma acção, quando penso numa solução jurídica para um problema, quando resolvo um conflito, quando acerto.
Mas o que eu gosto mesmo na minha profissão é fazer a diferença na vida de uma pessoa.
Ontem foi um dia assim. Trabalhei muito, muito mesmo, e ao fim de 7 horas tinha mudado a vida de uma pessoa. E não há nada que se compare ao calor de umas mãos a agarrarem as nossas, como se fossemos mais do que realmente somos. Não há nada que se compare a ver a pessoa voltar para trás, mais uma vez, só para nos agarrar as mãos, em jeito de agradecimento.
Ainda assim, quando hoje levei o meu filho a uma sala de audiências, quando lhe mostrei onde a mamã trabalha, quando, atenta a insistência dele de que também queria "atender pessoas", uma funcionária lhe deu um processo para a mão para que percebesse um pouco mais que a mamã lida com papéis, muitos papéis, sem as ilustrações coloridas a que está habituado, desejei, em voz alta, que não seguisse as pisadas da mãe.
Fico orgulhosa quando ganho uma acção, quando penso numa solução jurídica para um problema, quando resolvo um conflito, quando acerto.
Mas o que eu gosto mesmo na minha profissão é fazer a diferença na vida de uma pessoa.
Ontem foi um dia assim. Trabalhei muito, muito mesmo, e ao fim de 7 horas tinha mudado a vida de uma pessoa. E não há nada que se compare ao calor de umas mãos a agarrarem as nossas, como se fossemos mais do que realmente somos. Não há nada que se compare a ver a pessoa voltar para trás, mais uma vez, só para nos agarrar as mãos, em jeito de agradecimento.
Ainda assim, quando hoje levei o meu filho a uma sala de audiências, quando lhe mostrei onde a mamã trabalha, quando, atenta a insistência dele de que também queria "atender pessoas", uma funcionária lhe deu um processo para a mão para que percebesse um pouco mais que a mamã lida com papéis, muitos papéis, sem as ilustrações coloridas a que está habituado, desejei, em voz alta, que não seguisse as pisadas da mãe.
terça-feira, 29 de julho de 2014
Está na hora
Os dois adormeceram juntos, com toda a logística que isso implica (um braço aqui, um pé ali, para evitar contactos mais violentos, ainda que involuntários, do Pedro à Ana).
De manhã, a primeira coisa que o Pedro me disse foi: " a mana não dormiu no meu quarto".
Pois não, meu amor, e está na hora, está mesmo na hora. Por ti, por ela e por nós.
Miguel, este post é especialmente dirigido a ti e à tua caixa de ferramentas.
De manhã, a primeira coisa que o Pedro me disse foi: " a mana não dormiu no meu quarto".
Pois não, meu amor, e está na hora, está mesmo na hora. Por ti, por ela e por nós.
Miguel, este post é especialmente dirigido a ti e à tua caixa de ferramentas.
terça-feira, 22 de julho de 2014
Das manhãs perfeitas
Quase todas as manhãs começam com uma correria e não estou a falar de desporto.
Quase todas as manhãs levanto-me bem mais tarde do que devia, chego sempre mais tarde do que seria suposto ao escritório.
Quase todas as manhãs as camas ficam por fazer, os carros espalhados pelo chão, a loiça do pequeno-almoço em cima da mesa.
Quase todas as nossas manhãs vos poderiam parecer o caos. Se alguém tocasse à campainha pelas 9 horas, perceberia que ali vive uma família ainda desorganizada a 4.
O que ninguém sabe é que antes do caos, ali vive uma família verdadeiramente feliz.
Ontem, depois de uma noite inteira de sono (o que é ainda raro, raríssimo), a Aninha enroscou-se no meu peito e ali ficou acordada. Contemplei-a durante cerca de 30 minutos, senti-lhe as unhas finas no meu peito, a respiração serena no meu pescoço, o cheiro quente que é só dela. Acabou por adormecer, da melhor forma que encontra, junto a mim.
Nem um minuto depois, ouvi o Pedro chamar-me. Pediu-me leite na cama e que eu ficasse ali, junto a ele. Foram os seus 30 minutos de mimo, de histórias sobre lobos, sobre carros, sobre quando eu era pequenina. O meu filho nunca é tão meigo como ao acordar. Aprendeu comigo a dizer o que sente, a abraçar e a beijar e quando o faz melhor não é quando eu regresso do trabalho, mas quando ele regressa dos sonhos.
Ontem não pude ainda regressar à minha cama para um abraço ao Miguel, porque excepcionalmente o Miguel saiu cedo, muito cedo. Mas tenho sempre esta sensação de abraço matinal, quando o despertador já tocou várias vezes, e quando adiamos mais uma vez o toque para que o abraço se prolongue por mais um pouco. Como hoje.
As nossas manhãs são um caos, é verdade. Mas antes de tudo isso, são perfeitas.
E hoje é só dessa parte que me consigo lembrar.
Quase todas as manhãs levanto-me bem mais tarde do que devia, chego sempre mais tarde do que seria suposto ao escritório.
Quase todas as manhãs as camas ficam por fazer, os carros espalhados pelo chão, a loiça do pequeno-almoço em cima da mesa.
Quase todas as nossas manhãs vos poderiam parecer o caos. Se alguém tocasse à campainha pelas 9 horas, perceberia que ali vive uma família ainda desorganizada a 4.
O que ninguém sabe é que antes do caos, ali vive uma família verdadeiramente feliz.
Ontem, depois de uma noite inteira de sono (o que é ainda raro, raríssimo), a Aninha enroscou-se no meu peito e ali ficou acordada. Contemplei-a durante cerca de 30 minutos, senti-lhe as unhas finas no meu peito, a respiração serena no meu pescoço, o cheiro quente que é só dela. Acabou por adormecer, da melhor forma que encontra, junto a mim.
Nem um minuto depois, ouvi o Pedro chamar-me. Pediu-me leite na cama e que eu ficasse ali, junto a ele. Foram os seus 30 minutos de mimo, de histórias sobre lobos, sobre carros, sobre quando eu era pequenina. O meu filho nunca é tão meigo como ao acordar. Aprendeu comigo a dizer o que sente, a abraçar e a beijar e quando o faz melhor não é quando eu regresso do trabalho, mas quando ele regressa dos sonhos.
Ontem não pude ainda regressar à minha cama para um abraço ao Miguel, porque excepcionalmente o Miguel saiu cedo, muito cedo. Mas tenho sempre esta sensação de abraço matinal, quando o despertador já tocou várias vezes, e quando adiamos mais uma vez o toque para que o abraço se prolongue por mais um pouco. Como hoje.
As nossas manhãs são um caos, é verdade. Mas antes de tudo isso, são perfeitas.
E hoje é só dessa parte que me consigo lembrar.
terça-feira, 3 de junho de 2014
Colo
"o melhor lugar que você irá conhecer é esse. O colo da sua mãe. Tudo que
acontecerá depois será a constante busca pela repetição do conforto, aconchego,
amparo, proteção que existe aí. Os abraços dos seus irmãos, serão. A mão da sua
tia, será. Os carinhos cuidadosos da sua avó, do seu avô, serão. O olhar
amoroso dos seus padrinhos, será. Essa constante busca pelo colo mágico da sua
mãe acompanhará sua existência nos seus amores, nas pessoas que compreenderem
essa coisa difícil que é ser companheiro, estar disponível, ouvir os seus
chamados. Lá na frente (não dá para ver ainda, é depois da última curva que
vemos agora), lá na frente, no futuro, você poderá até oferecer o seu colo para
sua mãe. O mundo aparentemente inverte a gente, quando convém. E o mais engraçado
é que, ainda que nessa situação, mesmo sem que você saiba, é o colo dela que
estará a serviço do seu choro, da sua angústia, das suas emoções e razões. O
Cacá, seu pediatra, diz sempre: "ela é uma bebê de colo", para dar
início às fabulosas aulas de vida (ele nos dá várias, a cada encontro).
Aproveite, filha. Contemplar um pôr-do-sol no colo da sua mãe é provavelmente a
melhor coisa que pode acontecer num dia comum como ontem. Ou hoje. E amanhã."
Escrito pelo Pai Pedro.
Tropecei neste texto por causa da Macaca.
E disse-me tanto.
A minha filha é uma bebé de colo. Do meu colo. Desde o primeiro momento em que o conheceu. E se, às vezes, me dava jeito que não estranhasse os colos de quem a ama, ao mesmo tempo dá-me vaidade que a minha pequenita, tão pequenita, o sinta especial, o sinta como o melhor lugar que irá conhecer. Porque é um lugar onde pode regressar sempre. Porque é do melhor que lhe posso oferecer.
Escrito pelo Pai Pedro.
Tropecei neste texto por causa da Macaca.
E disse-me tanto.
A minha filha é uma bebé de colo. Do meu colo. Desde o primeiro momento em que o conheceu. E se, às vezes, me dava jeito que não estranhasse os colos de quem a ama, ao mesmo tempo dá-me vaidade que a minha pequenita, tão pequenita, o sinta especial, o sinta como o melhor lugar que irá conhecer. Porque é um lugar onde pode regressar sempre. Porque é do melhor que lhe posso oferecer.
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