quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ana Miguel | 365 dias depois

365 dias depois, temos muito mais certezas, mais respostas. 
A maior certeza, a mais indubitável de todas, é a de que o amor é como esta nossa andorinha.Voa alto, voa a pique, faz acrobacias no ar e encanta, porque não há amor como o de uma família com o tamanho certo.
O amor é do mundo, como a Ana Miguel é (d)o mundo, mas regressa sempre a casa, esta casa que é a nossa, esta casa que é o colo da mamã, as cavalitas do papá ou a mão do mano.
Tal como a Ana Miguel, o amor hoje é imenso, amanhã será maior.
E porque nunca se vislumbra uma andorinha sozinha, o amor faz mais sentido em bando.  Hoje. E sempre.

21 de Fevereiro de 2015


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Do silêncio dos dias tristes

Fica-se em silêncio nos dias tristes.

A minha avó morreu num dia que deveria ser de alegria. Não estava doente, não houve pré-aviso, não houve tempo. Morreu velhinha.
Entrei novamente no Hospital que me fez nascer. Percorri outra vez as ruas da Póvoa com os meus pais. Voltei à Igreja do Largo do Tribunal. Repetições que se fazem em silêncio.
Entrei na casa dos meus avós pela primeira vez sem que ninguém a ocupasse. Deixei de ter avós vivos. Novidades que se fazem em silêncio.

Fica-se em silêncio nos dias tristes.
Mas o Padre, que não conhecia a minha avó, mas que a descreveu na perfeição, pediu que algum filho ou neto falasse. Ninguém merecia que eu ficasse em silêncio, nem a minha avó, nem a minha mãe, nem os meus tios, nem os meus primos.
Lembrei-me da fotografia do meu baptizado. A fotografia colectiva à porta da Igreja, os convidados todos, os abraços, os sorrisos. A minha avó não estava. Durante anos não entendia porque é que a minha avó não aparecia na fotografia. Logo a minha avó, que tanto quis que eu fosse baptizada. A minha avó ficou em casa a preparar a minha festa. Fez a comida, o bolo, organizou a mesa. A minha avó era assim: sempre primeiro os outros, sempre tão dedicada, tão querida.
Foi o que nos deixou de melhor, a sua absoluta dedicação.  


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

29 Janeiro de 2015

Saí para comprar um objecto que marcasse este dia.
Na procura, ainda disse em voz baixa à funcionária da ourivesaria: "Não é uma questão de sorte, é uma questão de amor."
Talvez não me tenha entendido. Também não me expliquei.
Talvez a razão não coincida com o que disse. Também não importa.

Hoje é assim que sinto: "não é uma questão de sorte, é uma questão de amor. O amor que sinto por ti não permitiria que fosse outra a notícia."


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

1/2 da minha vida

Constatei ontem, enquanto nos empurrávamos na casa-de-banho minúscula, um a pôr o gel, outra o risco nos olhos, que estamos juntos há metade da minha vida. 9 anos de namoro, 8 anos de casados, 17 anos juntos, sem interrupção. Estou a dias dos 34 e tenho o mesmo amor há 17 anos.
Metade da minha vida.
Uma vida inteira.

E ainda que não se meça o amor em anos, há uma grandeza enorme nesta constatação. Porque é metade de uma vida inteira, de uma vida inteira.

[Hoje, amo-te ainda mais.]

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Os cinco sentidos da minha vida | com a Ana Miguel

Uma imagem: as andorinhas, sempre as andorinhas.
Um cheiro: a quente, não sei mesmo dizer de outra forma, a minha filha cheira a quente.
Um sabor: doce e salgado.
Um som: La valse d'Amélie de Yann Tiersen.
Um gesto (o tacto): a cabeça da Aninha entre o meu peito e o braço, quase na axila, a forma como tão cedo escolheu para adormecer.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os cinco sentidos da minha vida | com o Pedro

Uma imagem: a sua pele cor-de-rosa, no meu primeiro vislumbre.
Um cheiro: a mar, porque nasceu junto ao mar, porque é menino de praia em todas as estações do ano.
Um sabor: doce, qualquer doce, porque é a doce que me sabe a sua pele.
Um som: as músicas de embalar, o som dos primeiros tempos (ainda hoje o Pedro chora sempre que as ouve e eu fico sempre neste misto de orgulho pelo filho sensível que tenho e de preocupação também pelo filho sensível que tenho).
Um gesto (o tacto): no colo, o respirar do Pedro junto ao meu peito.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Natal

O Natal foi cheio.
A certeza, agora, enquanto me sento sozinha, na sala, a tomar um pequeno almoço, hoje sem pão, mas com bolo rei. A certeza agora, enquanto tenho tempo para reparar que não há movimento de carros, não há crianças na escola, há céu azul e vento frio. A certeza agora, no silêncio da nossa casa, uma casa que esteve cheia, com família a dormir no chão, com turnos nas refeições. Sou a única que estou acordada mas confesso que não trocava estes minutos aqui, em silêncio, pelo calor do meu quarto. Enquanto procuro ignorar a confusão de brinquedos espalhados, lembro-me do melhor que o Natal me deu. Em tanto, tanto, escolho as palavras do meu filho, as palavras que não sei onde as vai buscar, as palavras que me surpreendem, me espantam, me comovem, e escolho o sorriso da minha filha, o sorriso que me traz segurança, me traz confiança, me dá certezas.

[Sim, Pedro, vou estar para sempre no mundo.]
[Sim, Aninha, no teu sorriso sempre a minha maior certeza.]