quinta-feira, 28 de maio de 2015

Ainda no seguimento do último post

Comentei há uns meses, a propósito de uma ida do Pedro ao Centro de Saúde para uma vacina fora do plano nacional de vacinação, que, agora, só aos 5 anos é que teria nova vacina.

Um dia destes, pouco depois de fazer 4 anos (sendo que o Pedro domina os números de forma exemplar...)

"Pedro: depois de ter feito 4 anos, quantos anos vou fazer?
Eu: Então, depois do 4 vem o 5!
Pedro: Não, eu depois dos 4 anos vou fazer 6!
Eu: Não, filho, vais fazer 5.
Pedro: Não vou, porque eu não quero ter 5 anos.
Eu: Porquê?
Pedro: Não quero ir à vacina."

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Um filho de peixe tubarão!

Quando eu achava que eu antecipava a vida por planear os eventos com muita antecedência, ainda não conhecia o meu filho Pedro.
O Pedro, sim, antecipa a vida. Para já, acho delicioso. O Miguel acha assustador...

"Eu: Vou dar estas tuas sapatilhas a um menino do trabalho da avó Mi.
Pedro: Não, mamã, não.
Eu: Mas já não te servem.
Pedro: Guarda para os meus filhos."

Enquanto arrumava uns sapatinhos da Aninha, já pequenos.
"Pedro: Podes guardar esses sapatos para a irmã do meu filho.
Eu: Como? Para a tua filha?
Pedro: Sim, para a minha filha, irmã do meu filho."

"Pedro: Os carros não vou guardar para os meus filhos. Os carros vão ser sempre meus.
Eu: Sim, filho, podem ser sempre teus, mas depois vais crescer e gostar de outras coisas.
Pedro: Não, mas os carros é diferente. São sempre meus. Vou ser crescido e brincar com carros!"

"Pedro: O que é que vais ser quando eu for crescido?
Eu: Vou ser sempre tua mãe.
Pedro: E dos meus filhos?
Eu: Vou ser avó. Avó dos teus filhos.
Pedro: E quando eu tiver um jantar à noite, tu e o papá ficam com os meus filhos?"

terça-feira, 19 de maio de 2015

Em jeito de Alberto Caeiro

Todas as semanas ouço na primeira pessoa uma história de violência. Demasiadas vezes a pessoa que me fala é a vítima. Algumas vezes o relato é feito pelo agressor.
Ouço e faço o meu trabalho.Tento não o levar para casa. Quase sempre consigo.
Aprendi a gerir o meu nível de tolerância ao sofrimento, à injustiça, à violência, ao erro, ao que é inexplicável aos meus olhos. O meu limite está naqueles casos em que eu tenho mesmo que intervir. Tudo o resto prefiro não saber para lá do que está nas letras gordas de um jornal.
Eu sei que as coisas acontecem, que há um mundo podre mesmo ao nosso lado, mas prefiro não saber para lá do título principal. As palavras só por si, sem o pormenor de uma descrição detalhada, de um vídeo viral, de um relato feito por uma terceira pessoa, não abalam o meu nível de tolerância e chegam-me para estar alerta.
É uma forma incompleta de conhecer o mundo? Não. Eu sei que ao virar da esquina estará uma história pior do que tudo o que poderíamos ter imaginado. Eu sei, nada me surpreende. Só não vale a pena aprofundar ou aproximar...


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Nem sei bem

Nem sei bem a que se deve o meu silêncio.
Culpo a falta de tempo, o viver a 1000, mas talvez não seja essa a verdade.
Procuro a culpa como se tivesse que ser sempre assim. Não tem.
O silêncio às vezes faz falta.
Escrever também e sempre sem cumprir o acordo ortográfico.

Em quase 2 meses de silêncio, escrevo, para não me esquecer mais tarde.

No dia em que fez 4 anos o Pedro chorou de felicidade. A sensibilidade do Pedro tem este efeito em mim, efeito bipolar, de criar uma criança com os sentimentos à flor da pele, como eu acho que devemos ser, mas que sofre para lá da medida.

O Pedro e a Ana. O amor dos dois. A relação como sempre imaginei a relação de irmãos. O que fiz de melhor na vida? Já disse isto, mas é mesmo o meu maior orgulho: estes dois, cada um deles, é certo, mas estes dois juntos. [Os primeiros passos da Aninha foram  para o Pedro, enquanto se ouvia "Aninha, vem ao mano, vem."]



As pequenas coisas, sempre as pequenas coisas. Ensino aos meus que as pequenas coisas são muito mais do que o seu tamanho. Compensa sempre ver a reacção gigante do Pedro às pequenas coisas, seja dormirmos os 4 só porque sim em casa dos avós, seja o "pequeno-almoço de hotel" em casa, seja confeccionar e experimentar sabores do mundo porque é disso que se fala na escola.

A Aninha. Como sempre imaginei a minha filha mulher: determinada, corajosa, reivindicativa e meiga, tão meiga.

As saudades. De tantas coisas. De tantas pessoas. A sensação, por vezes, de ausência relativamente a quem não devemos. E um sonho.

[Não sonhei com o meu avô. Não era o meu avô.
Era um velhinho, bonito, com as mesmas características físicas e que trazia o mesmo cheiro do meu avô.  
Estávamos num baile e a cada música eu teimava dançar com o mesmo velhinho.
Fechava os olhos e dizia-lhe: só mais uma música, só mais uma.
Enquanto fechava os olhos, o perfume fazia-me jurar que era o meu avô.
Em cada dança o meu avô.
E eu que não me lembro de alguma vez ter dançado com o meu avô.]


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ana Miguel | 365 dias depois

365 dias depois, temos muito mais certezas, mais respostas. 
A maior certeza, a mais indubitável de todas, é a de que o amor é como esta nossa andorinha.Voa alto, voa a pique, faz acrobacias no ar e encanta, porque não há amor como o de uma família com o tamanho certo.
O amor é do mundo, como a Ana Miguel é (d)o mundo, mas regressa sempre a casa, esta casa que é a nossa, esta casa que é o colo da mamã, as cavalitas do papá ou a mão do mano.
Tal como a Ana Miguel, o amor hoje é imenso, amanhã será maior.
E porque nunca se vislumbra uma andorinha sozinha, o amor faz mais sentido em bando.  Hoje. E sempre.

21 de Fevereiro de 2015


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Do silêncio dos dias tristes

Fica-se em silêncio nos dias tristes.

A minha avó morreu num dia que deveria ser de alegria. Não estava doente, não houve pré-aviso, não houve tempo. Morreu velhinha.
Entrei novamente no Hospital que me fez nascer. Percorri outra vez as ruas da Póvoa com os meus pais. Voltei à Igreja do Largo do Tribunal. Repetições que se fazem em silêncio.
Entrei na casa dos meus avós pela primeira vez sem que ninguém a ocupasse. Deixei de ter avós vivos. Novidades que se fazem em silêncio.

Fica-se em silêncio nos dias tristes.
Mas o Padre, que não conhecia a minha avó, mas que a descreveu na perfeição, pediu que algum filho ou neto falasse. Ninguém merecia que eu ficasse em silêncio, nem a minha avó, nem a minha mãe, nem os meus tios, nem os meus primos.
Lembrei-me da fotografia do meu baptizado. A fotografia colectiva à porta da Igreja, os convidados todos, os abraços, os sorrisos. A minha avó não estava. Durante anos não entendia porque é que a minha avó não aparecia na fotografia. Logo a minha avó, que tanto quis que eu fosse baptizada. A minha avó ficou em casa a preparar a minha festa. Fez a comida, o bolo, organizou a mesa. A minha avó era assim: sempre primeiro os outros, sempre tão dedicada, tão querida.
Foi o que nos deixou de melhor, a sua absoluta dedicação.  


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

29 Janeiro de 2015

Saí para comprar um objecto que marcasse este dia.
Na procura, ainda disse em voz baixa à funcionária da ourivesaria: "Não é uma questão de sorte, é uma questão de amor."
Talvez não me tenha entendido. Também não me expliquei.
Talvez a razão não coincida com o que disse. Também não importa.

Hoje é assim que sinto: "não é uma questão de sorte, é uma questão de amor. O amor que sinto por ti não permitiria que fosse outra a notícia."