sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O nosso Natal

Se tivesse que escolher uma palavra para descrever este nosso Natal, escolheria “UAU”. Naquele exacto momento em que a árvore saiu da caixa e começou a ganhar forma, o meu filho saiu-se com um “UAU”, nesse tom mais genuíno e inesperado. E eu, sim eu, novamente em espanto.

Se tivesse que escolher um objecto para adornar este nosso Natal, escolheria os corações dos desejos. Com tanto que dizem de nós, das nossas expectativas, das nossas promessas, do nosso futuro.

Se tivesse que escolher uma cidade para viver este nosso Natal, escolheria o Porto. Nunca fui tantas vezes à baixa do Porto como este ano. Ver a árvore, ver a “corrida do papá”, balançar-me nos baloiços do abraço e da família, tirar fotografias de tripé. E vendo as fotos, comover-me com a escolha do baloiço da família para a fotografia com amigos, sem ninguém questionar a escolha.  
Se tivesse que escolher um sabor para adoçar este nosso Natal escolheria o chocolate. A estratégia do chocolate, a diplomacia do chocolate, o só porque sim do chocolate…

Se tivesse que escolher a contradição para baralhar este nosso Natal, escolheria a praia. A fotografia do Pedro e do Diogo na praia no Verão colocada pela primeira vez no quarto do pequeno. O pedido do Pedro ao vê-la. O cumprir o desejo. Inverno, o Pedro e os amigos na areia. Os gorros e as mãos na areia. Os casacos de pipinhos e os pés na areia.

Se tivesse que escolher um achado para marcar este nosso Natal, escolheria as andorinhas, porque elas são a família e os amigos e porque elas me concederam o principal pedido que fiz este ano num momento muito difícil. Tenho agora uma andorinha para o pescoço, uma para o peito, uma junto da cama do Pedro.  

Se tivesse que escolher uma cor para pintar este nosso Natal, escolheria 4. As 4 cores com que o Pedro pintou as suas 3 primeiras telas. Com luas vermelhas, luas amarelas, triângulos verdes e triângulos azuis.
Se tivesse que escolher um presente para presentear este Natal, escolheria a carta que o João Cutileiro escreveu ao Pedro. Porque é uma prenda de valor incalculável para o meu filho, mas é uma prenda para mim e para o Miguel. Por aquilo que fizemos de melhor na vida ter chegado aos traços de alguém tão sensível e agora às suas palavras.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A primeira carta do Pedro

O Pedro recebeu a sua primeira carta. Enviada num envelope a si dirigido, mas com “Cc” da sua mãe. De uma pessoa rara, rara mesmo, que nem sequer o conhece em carne e osso.

É um agradecimento. Uma pessoa que nos marcou, ainda era “embrionário” o nosso amor, agradecia ao meu pequeno por me ter dado, a mim, uma das mais lindas gravidezes que ao autor da carta foi dada a conhecer.
Ninguém imagina como me comoveu esta carta.
Ninguém imagina as saudades que esta carta me trouxe.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Da excepcionalidade desta relação

Nunca escondi como me sinto grata pelos amigos que tenho. Amigos mesmo. Amigos que se dedicam, que se dão ao trabalho, que abraçam, de todas essas formas possíveis de abraços, seja o gesto, seja um chocolate, seja um telefonema, seja uma ida ao teatro numa Vito (eu sei que isto vai parecer incompreensível para a generalidade das pessoas...).

Ontem, enquanto falava com a sogra de uma amiga e mãe de um amigo, percebi que os outros também se apercebem da excepcionalidade desta relação.
Porque é uma relação que nos prende para nos dar liberdade. Ninguém questiona um jantar de mulheres, ninguém questiona um jantar de homens.
Porque, na diversidade, somos próximos na forma como somos pais e mães dos nosso filhos. Ninguém sobrecarrega o outro. Somos pais, somos mães, somos pais (pai e mãe) em igual medida.
Porque aprendemos a manifestar o que sentimos. E com isso fazemo-nos mais verdadeiros e serenos.
Porque enchemos os fins-de-semana. E com isso ensinamo-nos que os amigos querem-se assim, juntos. E com isso ensinamos aos nossos filhos o melhor que temos: o amor.  

E esta conversa permitiu-me ver ainda mais longe. Diz quem vê esta relação de fora que, por sermos assim, somos até melhores como casal. Eu acredito.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#21

Quando passamos a ouvir várias vezes "amanhã?" sempre que negamos qualquer coisa ao pequeno.
Quando continuamos a ouvir "amanhã?" depois de o pequeno nos recusar um pedido.

Ou seja, o meu filho tem grandes níveis de esperança, porque se hoje não pode, acredita que amanhã será diferente, e é um diplomata, porque se agora não quer, não nos fecha a porta para amanhã.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ainda a propósito da felicidade

A minha profissão faz-me ver que mesmo ao lado da porta há gente que vive numa realidade absolutamente diferente da minha. Gosto tanto disso, do facto de a minha profissão me fazer consciente de como somos tão diferentes, com vivências tão opostas…

No outro dia um cliente contava-me, com brilho nos olhos e com um entusiamo próprio de uma criança, como foi ter ido, agora, a primeira vez a uma feira de cavalos. No regresso a casa comeu leitão. Pela primeira vez. Como era deliciosa a forma como descrevia como lhe tinha sabido bem o leitão, “quentinho” e com “a pele a estalar”. Como se mostrava feliz, tão feliz. Sorri e o comentário inevitável: “então nunca tinha comido leitão…”. Ao que a mulher, a seu lado, espectadora de tudo o que o marido havia experimentado, espectadora dessa felicidade, porque não fora na viagem, me disse: “Eu nunca comi, Sra. Dra., e tenho 65 anos.”

E eu, com 31 anos, também nunca comi o bolo de sardinha que a Senhora faz. Nem em tal iguaria alguma vez tinha ouvido falar…

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

No caminho da felicidade.


Sábado fui ao workshop da Mum’s the boss “A arte e a ciência de educar crianças felizes” e adorei.  Eu sabia que estava no caminho certo para ser mãe de uma criança feliz, mas o workshop fez-me consolidar ideias e acelerar o passo.
Deixo aqui três das coisas que aprendi e que já comecei a pôr em prática.

-consequência em vez de castigo
O Pedro passou a fase de arremessar objectos para a fase de os pontapear. Pergunto-me onde vai buscar essas ideias agressivas. Ah, pois, o menino ainda não tem o cérebro completamente formado (private joke para quem esteve no workshop).
Assim, no Domingo, quando começou a pontapear o móvel da sala enquanto brincava com os carrinhos, expliquei-lhe que isso não se fazia, que com isso estragava o móvel e as sapatilhas e que como ainda não sabia brincar junto ao móvel, teríamos que sair dali. Mudei de divisão, o Pedro chorava, eu voltava a explicar e ele entendia bem, porque quando me dizia que queria ir para a sala e eu dizia “não”, ele terminava com a palavra que usa para dizer “pontapé”. Tentei várias vezes, acreditando que aquele “pontapé” era a promessa de que não o faria. Mas fez, até que parou. Mas eu sei que vai continuar. De todo o modo, acho que a consequência em vez do castigo é mais justa, com mais significado e um óptimo contributo para uma criança feliz (ainda que não pareça no momento em que a usamos).

-o toque no momento da ordem
Sinto muitas vezes que falo para o boneco e agora que são tantos lá em casa a coisa complica.
Experimentei uma só vez no Domingo e fez toda a diferença!

-uma actividade a cada dia, porque o que os pequenos precisam é de brincar!
Escolhi 7 actividades, excluindo carros e livros porque isso já faz parte do dia a dia do pequeno sem falhas, uma para cada dia da semana, por esta ordem: plasticina, bolas de sabão, construções, pintura, dança/música, máscaras/fantasias e a surpresa (um livro novo, um brinquedo novo, uma brincadeira nova…). Começaremos hoje e acho que vai ser uma animação, criamos uma rotina para o Pedro, o que lhe é favorável, segundo os entendidos, e óptimo para nós, porque temos um guião a seguir.
Deixo aqui o quadro que preparei para o efeito, com cores para cada dia da semana, estando à procura de autocolantes representativos de cada actividade para colar no dia respectivo.

 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Análise sociológica. Do jantar da primária

O primeiro jantar da primária foi há cerca de 1 ano. 14 colegas. Como foi bom reencontrarmo-nos. Ver como alguns estavam iguaizinhos, outros uma verdadeira revelação. Conversa fácil, apesar da distância de 20 anos…
Dos 14 todos tinham emprego. Nenhum desempregado, o que motivou comentários, porque há um ano a crise já era capa (mais do que instalada) de todos os jornais.

Agora, 1 ano depois, no terceiro jantar da primária, dos 10 resistentes, nenhum desempregado, mas 3 falam de emigração. Um já tem a viagem marcada para Março. Outro pensa seriamente no assunto e já tem contactos. O outro pensa nisso apenas.
1 ano depois 1/3 de nós tem o coração aqui e a cabeça no estrangeiro. E isto não faz capas de jornais?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Não dá para esconder que tens um filho pequeno...#20

Quando às 22 horas de Domingo, com um frio cortante, reúnes a família na varanda para fazer bolas de sabão.

Tudo tem uma explicação.
No início da semana o Pedro encontrou um frasco de bolinhas de sabão lá em casa. Expliquei-lhe que não as podia fazer dentro de casa e que por isso no fim-de-semana iríamos até ao jardim para as fazer. Nos dias seguintes, sempre que via o dito frasco dizia-me “no fim semana” e eu confirmava-o. O fim-de-semana chegou e eu nunca mais me lembrei das bolas de sabão. Até que o Pedro me avivou a memória ao ver a minha fotografia do telemóvel, em que eu estou exactamente com ele a fazer bolas de sabão. Porque as promessas não se quebram, mesmo que a criança não saiba se é ou não fim-de-semana, vestimos um kispo e um gorro ao pequeno e foi vê-lo numa alegria contagiante a correr atrás das bolsas. E o bónus? Contra as expectativas do pai, não fez birra para voltar para dentro.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ana, a criança

É sempre surpreendente o discurso de uma criança. As suas convicções, alicerçadas numa ingenuidade que lhe é própria, são deliciosas. O seu raciocínio é fascinante. As suas deduções são encantadoras.

Ouço muitas histórias dos meus tempos de criança, mas os meus pais não têm um livrinho, como eu pretendo ter para o Pedro, para registar as melhores saídas de sempre.
Eu, como criança era como todas as outras: surpreendente!
Como referi no post anterior, acreditei durante muito tempo que o meu avô tinha o seu rosto pintado na parede exterior do prédio. Ele era ou não era a pessoa mais importante daquele prédio? Mais tarde percebi que era o Vasco da Gama, nome escolhido para o edifício.

Ao atravessar de carro a ponte móvel de Matosinhos a minha mãe dirigida ao meu pai dizia “olha, Abílio, olha.”, ao que respondi, “mãe, o pai parece cego, mas não é.”

Durante muito tempo acreditei, por sugestão de um tio avô, que a minha mãe já tinha sido preta e portadora de uma bela carapinha e que a mudança se tinha dado quando passou a linha do equador, quando deixou Angola, o país onde nasceu.  

Com 3 ou 4 anos caí da altura de um primeiro andar. Rachei a cabeça. O aparato foi grande. A lesão nem tanto. Quando fui encaminhada para o RX, acompanhada pela minha mãe, o médico perguntou-me “o que é me contas?” e eu respondi “a minha mãe tem um sapato de cada cor, um azul e outro preto.” (era verdade, com a aflição a minha mãe calçou sapatos de pares diferentes). O médico disse à minha mãe “ a menina está óptima, não se preocupe.”

Em miúda tinha muita dificuldade em articular a palavra pontapé (não consegui mesmo perceber a dificuldade, mas lembro-me que me saía algo muito estranho). Para evitar constrangimentos, passei a designar o pontapé como o “murro com o pé”. 

Desisti do ballet cedo. No final de cada aula havia um momento livre em que supostamente cada menina não obedecia a comandos e expressava livremente a sua criatividade. Numa das primeiras aulas quis ficar sentada no meu momento livre. A professora não entendeu o meu argumento: se era para fazer o que quiséssemos, eu queria fica sentada…

A primeira vez que fui com os meus pais ao continente de Vila Nova de Gaia a viagem pareceu-me longa de mais. À minha mãe também. Disse-lhe, convicta, que estaríamos a chegar porque na placa indicava “Gaia. Despesas.” (na verdade a placa dizia Gaia. Devesas).

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Poveirinha

Hoje recebi um email com imagens da cidade onde nasci. Imagens de um tempo que me antecede. Ainda assim, essa cidade onde nasci por acaso (ou não), é hoje tão diferente…

Póvoa de Varzim. Em todas as estações. Passei quase todos os fins-de-semana da minha infância em casa dos meus avós. Nas férias grandes, várias semanas eram escolhidas para que evitasse as doenças de Inverno nessa praia de areia grossa e de mar revolto. As memórias que tenho da infância esbarram com as memórias que tenho da Póvoa.

A Póvoa na Primavera. Nesse jardim junto ao apartamento dos meus avós. Com o meu primo irmão, a correr. A convicção durante anos de que a imagem à saída do prédio era a do meu avô. Sim, porque, aos meus olhos (ou direi ao meu coração?), o meu avô era importante ao ponto de ter o seu rosto pintado na parede do prédio.

A Póvoa no Verão. Calor. Tantos primos que se encontravam no apartamento dos meus avós. Tanto calor. O caminho para a praia. Um labirinto nas traseiras de um prédio que não era o nosso mas que visitávamos às escondidas dos meus avós. O som das rãs. O cheiro das rãs. Sou de um tempo (nunca pensei dizer isto) em que em vez de prédios, a caminho da praia, havia um lago gigante cheio de rãs. Penso agora que talvez fosse fruto da construção que se adivinhava ou o que teria ficado de uma obra embargada. Mas ao tempo era tão só o lago das rãs. A praia, único lugar onde tinha uma barraca reservada. Beijinhos e estrelas do mar. Um corneto de morango à saída. Melaço nas mãos e salitre nas costas. Nos dias mais longos, era-nos permitido um gelado extra depois do jantar. Vinha o meu avô carregado com os pedidos dos netos e um super maxi para a minha avó.

A Póvoa no Outono. As folhas secas à porta do prédio. O vento. Tanto vento. A história de que por causa do vento a minha mãe recebera um casaco de pele quando na Póvoa se instalaram vindos de Angola.

A Póvoa no Inverno. No dia em que nasci. Em todos os outros. Ouvir a minha mãe dizer que era assim que adorava a Póvoa. A ver a chuva cair no vidro do carro junto ao mar. Na véspera de Natal. Em todas as manhãs de Domingo que saía da minha cama e me enroscava no meio dos meus avós. Voltava a adormecer embalada pelo som dos cascos dos cavalos que puxavam as carroças. Tenho tantas saudades desse som. Sim, porque sou do tempo em que as carroças abundavam na Póvoa.

O sítio onde nascemos faz-nos. Também. Cresci a ouvir dizer que era mesmo Poveirinha. Refilona. Sem papas na língua. Eu, Poveirinha. Em todas as estações. Feita dessa cidade que só era minha ao fim-de-semana, mas que me tinha todos os dias por causa dos meus avós.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Os 4 corações

Há uns dias encontrei-me por acaso com 4 corações. Os 4 numa montra de uma loja. Com umas frases pintadas em francês, essa língua que não domino. Um dizia algo como a minha primeira pulseira do hospital, o outro a primeira madeixa de cabelo, outro ainda o primeiro dente de leite e o quarto não conseguia chegar lá. "Porte bonheur"... A internet salva-nos sempre. Seria a caixinha para guardar a primeira lembrança da sorte, de protecção, como uma figa ou um trevo. Trouxe os 4 corações para casa. Coloquei a pulseirinha do hospital no coração respectivo. Guardei dois deles porque me separam anos da queda do primeiro dente de leite e porque o cabelo do Pedro teima em não crescer. No coração do "porte bonheur" coloqui a mola com o cordão umbilical do Pedro. Coube na perfeição. E não é que faz todo o sentido?! Há maior protecção do que aquela que nos chega por esta ligação inviolável e intra-uterina?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#19

Quando o que seria motivo de orgulho e prova de criatividade
É mesmo a cadeira da sala de jantar...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A primeira vez

O que é mais surpreendente num filho é a quantidade de “primeiras vezes” que nos ficam agarradas à memória e ao coração. Vivo em espanto. Com tudo o me dá pela primeira vez, com tudo o que faz pela primeira vez.

Não me esqueço de tantas primeiras vezes. Ainda lhes sinto o cheiro, a confusão das cores, os paladares, o coração a bater mais depressa. Tudo por causa deste amor à primeira vista.
A primeira vez que o vi, tão cor-de-rosa.
A primeira vez que o alimentei, a boca na minha pele.
A primeira vez que vi o Miguel a dar-lhe banho.
A primeira vez que sorriu.
A primeira vez que se deixou fotografar profissionalmente.
A primeira vez que mergulhou na piscina.
A primeira vez que se encantou com uma peça de teatro.
A primeira vez que lhe vi um dente.
A primeira vez que, tardiamente, rodou.
A primeira colher de puré de cenoura.
A primeira colher de iogurte.
A primeira vez que disse mamã.
A primeira vez que disse mamã intencionalmente.
A primeira vez que disse papá.
A primeira vez que gatinhou.
A primeira vez que andou (fiquei em êxtase porque não o julgava tão hábil).
A primeira vez que fez uma torre com brinquedos.
A primeira vez que foi à estante dos livros e sozinho o folheou.
A primeira vez que gostou de calcar a areia e de molhar os pés no mar.
A primeira vez que me abraçou, com força, dando-me palmadinhas nas costas.
A primeira vez que me colocou as mãos, lado a lado, na cara e me fixou os olhos.
A primeira vez que me beijou.
A primeira vez que repetiu o beijo.
A primeira vez que deu a chupeta ao Peter.
A primeira vez que disse tudo o que já diz: cá (carro), tocá (autocarro) má (máquina), bó (bola), alua (lua), cão (o animal), cão (chão), não, bô (bolo), geado (gelado), olá, abu (avô), abó (avó), Ana, Joana, Margaid (Margarida), Maía (Maria), tótó,  tiangulo (triângulo), cadado (quadrado), circ (círculo), amalelo (amarelo) a-zul (azul), laanja (laranja), vemel (vermelho),  atémanhã (até amanhã), então, manga, gute (iorgurte), caninha (carninha), massa, arru (arroz) …
A primeira vez que bateu os pés quando lhe disse para nadar na banheira.
A primeira vez que fez uma birra a sério.
A primeira vez que terminou uma frase da minha mãe com um “está bem?”.
A primeira vez que respondeu ao brinquedo bilingue “bye bye”
A primeira vez que, numa frase comprida e imperceptível, disse “alua amanhã”, depois de lhe ter dito que naquela noite a lua estava escondida mas que no dia seguinte já seria visível.
A primeira vez que riu às gargalhadas com uma palavra nova, como calmex, a sério? ou leleco (personagem da novela).
A primeira vez que partilhou um brinquedo com o Gonçalo, para logo se arrepender.
A primeira vez que dançou de alegria ao ver o primo Diogo.
A primeira vez que chorou por querer despedir-se da prima Margarida.
A primiera vez que, vendo uma fotografia da Maria, choramingou, passando as mãos na foto, nesse gesto tão fofo que usa para pedir.
A primeira vez que chegou à sala com a caixa do gelado, esquecida na cozinha, pedindo “maiis”.
A primeira vez que me disse, preparando-o para ir para a cama, “ainda não”.
A primeira vez que, de manhã, na nossa cama, ainda meio a dormir disse “mamã, papá”, rodando os braços para nos tocar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#18

Quando ouvimos da sua boca, assim, sem ninguém lhe perguntar nada, no meio de palavras imperceptíveis, isto: “mamã totó, papá totó”.

Sim, lá em casa somos todos da mesma espécie.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A tarde mágica


Era uma tarde normal, 5 crianças e um bebé (o meu ainda é bebé, não é?).
Trocámos os jogos de computador, os carrinhos e o conforto da sala pela floresta.
Já não era cedo, o dia tinha-se posto cinzento, a luz não tinha aquela cor matinal que encontrei no local aquando da primeira visita. Mas este sítio, em Sintra, a caminho da Peninha e dos Capuchos, é inevitavelmente encantador com qualquer luz, a qualquer hora do dia.
Preparei tesouros doces e um lanche comum.
O que fez a diferença foi a manta que trago sempre no carro, estendida, permitindo um pic-nic improvisado. Comer sentado à chinês, com o cheiro da terra e das heras mais perto fez mesmo toda da diferença.
O que fez a diferença foi esconder os tesouros entre as pedras e o verde e deixá-los correr.
O que fez a diferença foi a minha descrição do local.
Ainda em viagem falei-lhes de que aquela floresta era mágica, porque só em sítios brindados pela magia as heras trepam as árvores e o silêncio se abate sobre nós como o melhor som de sempre. Falei-lhes de fadas, com o olhar inquisidor do Miguel por achar que o meu afilhado já tem idade suficiente para saber que elas não existem. Falei-lhes do encanto que só se encontra nos filmes ou nos livros de contos, mas que ali se revela em cada folha, em cada fio de luz por entre as árvores, em cada som…

O que fez a diferença foi tão pouco. Mas deu-nos tanto.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Senti nas mãos a minha avó

Ontem senti nas mãos a minha avó Belinha.

A minha avó Belinha não me viu crescer de perto, apesar de as nossas casas estarem a não mais do que 15 minutos de carro. Não fez bolos comigo. Não me beijou sem razão.
Tenho pena que assim tenha sido.
Mas não me sinto responsável por isso.
Porque, apesar de a vida se ter traçado assim, sempre ouvi com curiosidade as histórias que tanto gostava de contar dos seus tempos de mulher bonita (e tão bonita que foi, dando razão ao nome pelo qual a chamavam), as histórias do meu pai, as histórias do meu avô, de quem se divorciou num tempo em que não se permitia às mulheres fazerem-no.
Porque, apesar de a vida se ter traçado assim, por várias vezes lhe fiz a sobremesa que queria ou, mesmo sem me pedir, os scones de que tanto gostava.
Porque, apesar de a vida se ter traçado assim, sempre insisti para que o meu pai fosse mais presente.
Arrependo-me apenas de não ter acedido ao seu pedido de me arranjar as unhas no dia do meu casamento.
A minha avó era pedicure. A melhor que conheci. Trabalhou anos num salão, continuou a fazê-lo em casa para as clientes mais fiéis. Arranjou-me os pés várias vezes, ensinou-me truques preciosos, principalmente para quem, como eu, tanto sofre dos pés.
Ontem uma das minhas unhas deu sinais da falta da intervenção da minha avó. Fiz exactamente o que me ensinou (poupo os detalhes menos agradáveis). Parece-me perfeito o resultado. Só porque tive nas mãos a minha avó, por um bocadinho.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os dias felizes


fazem-se de bolas de sabão...
fazem-se de amor...

E ficam registados pelos olhos e pelas mãos da Mariana Sabido

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O meu filho tem-me em muito boa conta!

Sempre que vê o novo anúncio da intimissimi diz repetidamente mamã, mamã. Já lhe expliquei que não é a mamã, mas o pequeno insiste. Ele lá sabe tirar as parecenças! ;)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O fim-de-semana

Num preâmbulo a cor-de-rosa. 14 mulheres à volta de uma mesa. Vinho rosé. Limonada para as grávidas. Conversas. Surpresas. Corações. Tantos. O meu coração nas mãos daquelas minhas 13 amigas. As nossas semelhanças, as nossas diferenças, mas o nosso amor tão despreocupado com o que nos separa e tão atento ao que nos aproxima. Últimas fotos. Partidas para o Miguel. Risos, tantos risos.
O jantar só terminou no dia seguinte. Às 4 da manhã, quando as 3 últimas pessoas deixavam a minha casa, não podia imaginar que seria o último vislumbre do Guilherme em modo “enclausurado”. Não podia mesmo.

Fiquei desconfiada com o telefonema e com a mensagem para o Miguel, que ainda dormia, a uma hora pouca própria para quem se deitou tão tarde. Resolvi ligar. Perguntei: “A Andreia está em trabalho de parto?” “Já nasceu”, foi o que me responderam. Como fiquei feliz. Essa felicidade que é maior porque nos chega de surpresa, porque me emociona essa correria pela qual não passei quando o Pedro nasceu.
E 29 de Setembro passou a ser também o dia 1 do Guilherme. Desse meu amor mais novo que esperou pelo pai para nascer, que permitiu que a mãe se lembrasse para sempre que a amizade também se veste de cor-de-rosa pink, esse amor mais novo que nos aproxima a cada dia.

E o fim-de-semana seguiu com mais resoluções, com conversas ao almoço sobre o futuro, com a vontade de mudar, de aprender algo novo.
E ainda com mais festejos. A minha mãe festejou 57 anos novamente com um sorriso. Essa minha mãe que é tão minha. Como me comove o que dá ao meu filho, nessa repetição de transformar uma infância em algo tão doce. Como me serena o olhar do meu pai para a minha mãe, a manifestação daquele amor tão longo ainda que numa frase sem grande importância: “Pedro, vai à avó. Avó que mais parece tua tia…” Como me faz feliz tê-la como mãe e ver como a minha vida e a dela se repetem e se cruzam.  

É de dias assim que a vida se faz. Que venham mais.

Quando for grande quero ser diferente...

Passei o fim-de-semana, que foi cheio, com uma preocupação que não me diz respeito. Um fim-de-semana carregado de festejos e boas notícias mas com esse peso, o peso dos problemas dos outros, o peso dos erros dos outros. Senti necessidade de falar nisso inúmeras vezes.
Ontem descobri que me preocupo demais. As pessoas não apareceram nem à hora marcada nem a qualquer outra nem sequer telefonaram. Quando é que eu aprendo?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Visão bipolar

Eu sofro de visão bipolar!

18 meses depois daquele dia que me trouxe o melhor mas também um nariz de adolescente (private joke ou nem tanto), não estou satisfeita com o meu corpo.
4 anos depois de um casamento volto a entrar num vestido que, quando o comprei para essa ocasião, não me apertava, mas era único. Por isso não me restou alternativa do que emagrecer para caber nele. E coube! E como fiquei feliz na altura e como me achei maravilhosa...

E agora que voltei a vestir esse dito vestido, que já não foi preciso esforço para apertá-lo, não me vi maravilhosa, não senti o mesmo, nem lá perto.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#14

Quando é motivo de orgulho e euforia ouvir a palavra "tiângulo" quando a dita forma geométrica se atravessa no caminho.

(sim, isto é mesmo só para dizer que o pequeno, que é pouco dado às conversas, diz triângulo e já agora quadrado, quer para identificar quadrados quer rectângulos).

...

Coube sempre no colo da minha mãe. Em criança, na adolescência, na vida adulta.
No dia anterior ao nascimento do Pedro adormeci no colo da minha mãe, como em tantas e incontáveis vezes.
Ainda há uns meses me deitei sobre o colo da minha mãe e voltei a dormir.

O que mudou? Também eu dou colo à minha mãe. Também a vejo frágil, vulnerável, insegura, como nunca poderia imaginar enquanto criança.
Agora que as notícias são boas, trago comigo esta nova realidade: sou crescida, sou adulta, sou capaz. Porque se em quem eu sempre confiei para me amparar se agarrou aos meus braços, sou mesmo capaz.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Na curva do teu/meu pescoço


A primeira imagem que tenho da minha mãe não é visual. É um cheiro. Lembro-me de ser pequena, pequena mesmo, e de lhe cheirar a curva do pescoço. E cheirava “tão bem”, era assim que eu o dizia. Não era um perfume, era mesmo o cheiro do seu corpo que o meu amor desmesurado transmutava no melhor perfume de sempre.

Acho que com o Pedro também é assim. Sei que me sente, talvez porque me cheira, mesmo sem me ver. É assim de manhã, depois do primeiro leite, quando o dia ainda é pequenino e a luz escassa no quarto. Levo-o para a nossa cama, só para uns minutos de mimo (ao fim-de-semana são bem duas horas) antes do despertador tocar definitivamente e nos trazer à realidade. Se me levanto ouço “mamã?”. É assim no carro, quando me pede sonolento que lhe agarre a mão. Faço-o com custo, porque o Pedro viaja numa cadeira invertida e tenho que me contorcer para lhe chegar à mão. Se outra pessoa, o pai ou alguém que vá atrás com ele, lhe agarra a mão, mesmo com os olhos já cerrados pergunta “mamã?”. É assim no último leitinho, mesmo antes de se deitar, onde me parece dormir melhor, bem junto ao meu peito na direcção desse lugar de cheiros de infância.

Apesar de estar quase diariamente com a minha mãe, já não lhe encontro esse cheiro da infância. Como se fosse o cheiro de um tempo, daquele tempo. Mas tenho-o absolutamente presente. Não o reconheço em qualquer outro lugar, mas ao pensar no colo da minha mãe, sinto-o mesmo aqui, junto ao meu nariz.
E isso faz-me pensar qual o cheiro que o Pedro reconhece em mim.
Talvez doce, nessa combinação perfeita de chocolate e amor.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O que os olhos não vêem...

Ontem foi noite de birras. Nenhum drama, porque o pequeno está na idade disso, porque já li imensa coisa sobre o assunto, porque estou psicologicamente preparada para me manter firme, abraçá-lo quando começa com aquela dança tribal, que até me faz esboçar um sorriso, consolá-lo quando passa para o choro, mas sempre repetindo "não, não se faz isso..."
O motivo? O pequeno não reagiu bem ao facto de lhe inibir esta nova tendência para atirar carros pelo ar, atingindo os mais descuidados, como o caso do meu pé, que já é de fraca qualidade e que por isso não precisava de um downgrade.
O outro motivo? (esta já sou eu a dar numa de psicóloga) As férias acabaram e ontem foi o primeiro dia do regresso à rotina, sem ter os pais permanentemente presentes.

Ora então a cena começa com dois carros, um em cada mão do Pedro, uma contagem interior do género "em 3, 2, 1" (sou eu a ficcionar a coisa, mas parece mesmo), e lançamento de carros.

Eu: Não! (em voz grossa, quase que não me reconheço) Depois já no tom normal: Não se atira os carros para o ar! Estragas os carros, estragas o chão e, sem querer, ainda magoaste o pé da mamã.

Pedro: Inicia a dança tribal, que é uma dança em que sincroniza os pés e os braços, abana-os freneticamente, não saindo praticamente do lugar. Depois chora, chora mesmo, com lágrimas, como se se tratasse da maior injustiça coartar-lhe o jeito que tem para o lançamento de carros.

Eu: Não, filho, não se atira os carros, sempre abraçando-o e falando-lhe com calma.

Take 2: igualzinho, sem a parte de me atingir o pé, porque já estava de sobreaviso.

Take 3: idem, mas agora fica sem os carros. Chora mais. Depois de o serenar, já não estando a chorar, devolvo-lhe os carros.

Take 4: Faz o gesto, como se os fosse atirar, mas diz "não, não" (fofo que só visto), faz segunda vez o gesto, mas sempre dizendo "não, não". Sai da sala, vai para o hall de entrada, achando que estava longe da minha vista e atira os carros sem eu supostamente o ver.

Não fiz nada. Não o repreendi. O que os olhos não vêem o coração não sente... ;)
Não sei se fiz bem, mas a verdade é que o Pedro compreendeu o que lhe disse, não quis deixar de o fazer por mais uma vez, quase numa tentativa de sair vencedor, ainda que no anonimato. Isso acalmou-o, voltou à sala, trouxe os carros e eles passaram a circular rasteiramente.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

As férias

As férias trouxeram-me más notícias, daquelas que me tornam melhores porque antecipam decisões, me obrigam a estar ainda mais presente, com um abraço pronto, um beijo destinado, as lágrimas de confiança. As férias relembraram-me como tenho amigos especiais, uma amiga que é uma irmã, um marido que é um companheiro. As férias trouxeram-me ainda outras notícias más, a injustiça que nos espreita a todos nós mas o consolo do regresso a casa e da certeza de que tudo será como dantes. As férias fizeram-me voltar a locais de que gosto, agora com um filho que não deixa de calcar com a sua corrida acelerada cada areia da costa alentejana. As férias permitiram- me uma recordação eterna no desenho de uma concha achada a 3 nas areias de Tróia. As férias relembraram-me sabores com alma, peixe e marisco fresco, pizza pazza, gelados do santini, migas e ovos com espargos. A roupa mais justa não me deixa esquecer que as férias me deixaram quilos a mais... As férias fizeram- me revisitar o meu Porto, voltar a lugares da infância e descobrir outros pela primeira vez, mostrar a nossa cidade ao Pedro do cimo da ponte D. Luis e contemplar que temos tanto tão perto. As férias permitiram- me recordações inigualáveis no guincho com os pés na areia fina e numa floresta com os pés no ar, levados os 6 por bolas de sabão. As férias permitiram o reencontro dos dois amigos mais pequenos e a certeza de que são mesmo irmãos porque aos 18 meses só quem se ama como família dança de alegria ou repete o nome vezes sem conta. As férias deram-me a serenidade do Alentejo profundo, o pôr do sol rente a nós, a lua quase cheia em brilho intenso. As férias trouxeram-me o choro mais longo do meu pequeno, a dor que é maior em nós a cada lágrima mas a confirmação de que me comporto como uma mãe deve ser. As férias permitiram- me voltar a falar de mágoas passadas e tentar ser melhor. Outra vez, falar para ser melhor. As férias trouxeram- me expectativas que não se confirmaram. Mas as férias deram- me muitas horas de sono em falta e por isso mais sonhos... 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eu, a espécie rara outra vez.

Já fui escrevendo sobre isto, aqui e ali.
A minha visão sobre o pós-parto, a relação a dois depois de seremos três, a maternidade, a educação não é coincidente com a generalidade dos discursos que por aí ouço.
Há um receio que é recorrente nas mães que eu não tenho: o medo de morrer. Não que não me assuste a morte pela sua definitividade, mas o meu medo de deixar de viver manteve-se inalterado após o nascimento do Pedro.
Aliás, como já escrevi, o Pedro trouxe-me alguma serenidade nesse aspecto, porque nele estou eu também, nele está a minha história, a minha vida, a minha marca, nessa forma mais perfeita que só um bebé consegue trazer às coisas.
No outro dia uma amiga falava-me do susto que apanhara na eminência de um acidente rodoviário e no seu pensamento de morrer e de deixar a filha pequena sem mãe. A falta que lhe faria… Isso é indiscutível. Porque não há um tempo certo para ficarmos sem mãe, sem pai, sem avós. Não há isso do “cedo demais” porque nunca é tempo.
Ou seja, não tenho dúvidas de que há um lugar na vida do Pedro que só a mim me pertence e que, se eu morresse precocemente, muito ficaria por partilhar, por dizer, por viver.
No entanto, não sinto qualquer angústia pela minha ausência, mesmo que definitiva. Não sinto esse medo. E claro, uma ou outra vez questiono-me se isso, que parece ser típico da condição de mãe, me faz pior.
Espero que não.
Confio tanto nas pessoas que fazem parte do Pedro, no Miguel, nos meus pais, nos meus sogros, nos tios maravilhosos que o meu pequeno recebeu, que sei que, na minha ausência, apesar disso, o meu filho teria o melhor e seria feliz.
E, paralelamente, vem-me à cabeça a estranha postura que tão frequentemente encontro em pais e mães que, após o divórcio, se sentem inseguros em deixar o filho com quem antes o confiavam cegamente, com quem antes até se pedia mais (mais muda de fralda, mais banho, mais dar o jantar) e que agora, porque o vínculo do casamento se desfez, já não é capaz, já não sabe, já não cuida.
Sei que não serei assim se um dia a vida me afastar do Miguel (kido, isto é só um raciocínio). Nada me faz duvidar que fará sempre o melhor para o Pedro, que cumprirá escrupulosamente o que delineamos para o nosso filho e que não será nunca o fim do nosso amor que colocará em causa esse amor maior que sentimos pelo Pedro.
Digo isto tão convictamente que sei, pela experiência (e até é alguma neste domínio), que também aqui fujo à regra.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Toda a vida ouvi isto


 "Só não perdes a cabeça porque está presa ao pescoço”
Mas nem é bem isso, não perco propriamente as coisas, guardo-as bem guardadas e, depois de um ataque súbito de amnésia, perco-as de vista, por dias, semanas, meses.
Tudo começou na minha infância com um hábito incompreensível de esconder os brinquedos mais queridos, para os poupar ao uso. Não brincava com eles, saíam da minha vista e tempos mais tarde tinha a agradável surpresa de os encontrar num lugar impensável.
A coisa foi refinando com a chegada da vida adulta. Com excepção de dois óculos graduados, que perdi mesmo, muitas vezes não sei onde guardo as coisas, dando-as como perdidas. Óculos de sol, brincos, relógios, aquele casaco que queria mesmo usar e não podia ser outro. Tudo acaba por aparecer, ou depois de ter adquirido algo em substituição, o que me deixa fula, ou quando até já nem era preciso porque já nem gosto tanto da peça ou a estação do ano já mudou.
O último episódio aconteceu recentemente. Há 10 mil km atrás, na revisão do meu carro, fiz com que os senhores da oficina o revirassem para encontrarem a chave de segurança dos pneus, já que os mesmos precisavam de ser cruzados. E nada. Não apareceu. E os pneus não foram cruzados.
10 mil km depois, com as férias a chegarem e com a insistência do meu marido para resolver a coisa, porque não dá jeito furar um pneu no meio do Alentejo e não ter a chave de segurança para o poder substituir, voltámos a procurar. (Eu, sem esperança, encomendei uma chave nova). Procurámos tudo, o apartamento todo, o carro todo (várias vezes), até o carro do meu marido, porque até a podia ter deixado lá, já que se o pneu furasse teria que ter ajuda, seria ao Miguel a quem telefonaria e o Miguel só se desloca de carro (até fazia sentido, não?). E nada.
Numa noite, o Miguel, que me conhece tão bem (porque só quem me conhece tão bem vai procurar naquele lugar), encontrou-a. A chave de segurança dos pneus estava na gaveta dos necessaires. Não faz sentido, eu sei. Por muito esforço que faça, não encontro explicação para o sucedido. E tive que ouvir, até nos deitarmos, “quem é o maior? Vá, diz lá, quem é o maior?”

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O que eu não dava para estar aqui novamente!


Mais perto das nuvens.
Em silêncio.
De mãos dadas com o amor.
Em paz.
Longe da realidade.
Rente ao sonho.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Virtualidades

Há uma dimensão que trespassa o que é virtual quando se segue um blog com regularidade.
Desde que o faço, aprendi mais, senti-me menos espécie rara, perspectivei alternativas, ri-me, passei à acção, tive retorno, comovi-me, percebi que o mundo é mesmo redondo e criei empatia por quem nunca vi em carne e osso.
Gosto tanto disso.
E não me importo de continuar a ouvir “o quê? leste isso nos teus blogs?” Sendo que só tenho um, que é este. Mas é mesmo isso, é como se aqueles que sigo religiosamente fossem um bocadinho meus.

É a grande virtualidade disto, que afinal não é assim tão virtual.
Um beijo maior à Princesa e à Valsita por mais um selo.

E um beijo maior à Duchess pelas lágrimas e pelo elogio.. ;)
E um beijo maior à Magda por tudo aquilo que me vai ensinando (por vezes via Melancia).

E um beijo maior, assim para o gigante, à Melancia pelo post dedicado aos pés de família.

O dia dos avós ficou marcado...

...por esta forma.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

E se a minha infância se resumisse a uma imagem



Poderia bem ser esta.
Porque foi uma infância doce.
Porque foi uma infância marcada por rituais.
Porque foi uma infância com rasgos de surpresa, euforia, maluquice pura.

Tinha eu cerca de 6 anos e, ritualmente, acompanhava o meu pai e a minha mãe para o café após o jantar. Café de beira de estrada, junto a uma bomba de gasolina. Ou seja, charme? Nenhum. Mas nem é isso que importa quando somos crianças.
Os meus pais sempre foram algo permissivos quanto à minha alimentação. Não me lembro de me ser recusado um chocolate (mal! É por isso que hoje sou dependente), um gelado (só não podia ser calipo, sei lá porquê), um sumo.
E por isso, quase a cada noite, me era permitido fazer um furinho e esperar pela cor da bolinha para saber que chocolate me caberia. Tanto fazia. Gostava de todos. Mas era uma emoção, nesses milésimos de segundos de espera ansiava pela bolinha prateada ou dourada, que me trariam um chocolate enorme.

Não deixa de ser curioso como estas lembranças me trazem o empolgamento da altura. É tão fácil ser feliz em criança.
Depois, de vez em quando, num acto absolutamente irracional, o meu pai deixava-me fazer vários furos de uma vez, até mais de 10, porque quem fizesse o último furo, tinha como acréscimo um grande conjunto de chocolates. Como eu vibrava com a loucura do meu pai. “Mesmo, pai? Todos?” Lembro-me tão bem que o espanto que me assolava estava também no rosto do empregado do café. E recordo a voz da minha mãe, ao longe, sem se impor propriamente, mas a lançar algo como “não têm mesmo juízo”.

E não tínhamos. E a infância é feita de dias assim. Em que se perde o juízo para se ganhar a noite, regressando a casa carregada de chocolates.
Cresci e deixei de acompanhar os meus pais ao café com a mesma regularidade.
Um dia reparei que a máquina dos furinhos (eu sei que aquilo não é uma máquina mas era assim que a chamava) já lá não estava.
Nem lá nem em lado nenhum.

Passaram-se anos até ter repetido a emoção, desta vez com amigas, numa feira em Viana. Lembro-me que senti o mesmo entusiasmo e que telefonei aos meus pais para lhes dar conta que, por mais uns minutos, voltei à infância.
Hoje, voltei mais uma vez. Só por causa desta imagem. Obrigada Susanita.

Como é que isso vai? (versão brasileira)

Vai rolando...

terça-feira, 17 de julho de 2012

Desafio: as minhas 3 peças de roupa

A resposta ao desafio chega tarde (a minha aptidão para fazer montagem de imagens é zero).
Foi-me lançado pela Princesa e consiste em seleccionar 3 peças de roupa que não dispenso.
A escolha não é a mais expectável, mas é a minha.
1-Lenços! Muitos, de todos os géneros, de todas as cores, em diversas ocasiões. Na gravidez, então, deram-me um jeito enorme, porque o vestido era o mesmo, mudava era o lenço!
2-Meias com rendinhas para usar com sabrinas (não sei qual o nome correcto para esta peça de roupa). Desde que as descobri na Calzedonia, não as dispenso, porque dão uma graça às sabrinas, porque permitem que alguém como eu, que só tem 3 pares de sabrinas, mas que as usa todos os fins-de-semana ou fins de tarde, por causa das correrias do pequeno, possa parecer ter uma coleccção mais variada de calçado do que verdadeireamente tem.
3-Peças com história. Adoro peças de roupa com significado, como o lenço que usei no dia do nascimento do Pedro, como a minha blusa de margaridas que coloquei após o nascimento da minha sobrinha, como o casaco quer está na imagem, que é o casaco do vestido de casamento da minha mãe. Nada como uma dimensão emocional na roupa para nos sentirmos melhores.

Apesar de saber que a menina não gosta de desafio, lanço-o à Pitú como empurrão para desenvolver a temática da roupa na gravidez, e à Melancia, que está bem mais jeitosa do que eu nestas coisas das montagens. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Não é hoje a Primavera?

Já estamos no Verão (estamos?).
Ainda era Inverno quando te soubemos pela primeira vez, ao sabor de um bolo rei.
E hoje, para nós, é Primavera.
É Primavera porque nasceste, Margarida. Porque te temos no colo, porque repetimos a emoção de ter junto à pele alguém que esperavamos há muito, porque não há explosão maior do que concretizar o amor na forma do teu rosto, na perfeição das tuas mãos, nos teus olhos rasgados, no teu choro cheio de personalidade.
Hoje é Primavera porque estás connosco, Margarida. Especialmente com o Pedro, que te reconhece desde cedo como o bebé na barriga da tia e que ansiava pela prima verdadeira (prima vera, vês!) para brincar, para proteger, para amar.
Hoje é Primavera porque sentimos o cheiro de flores, talvez mais o teu, Margarida.
Hoje é Primavera porque nos chega um sol ameno e um vento brando. És tu, Margarida.

Para nós, o dia em que nasceste será sempre Primavera.


Só eu é que não vejo?

Quando a nossa mãe, o nosso marido e uma das nossas melhores amigas nos dizem, sem prévia combinação, que parecemos tristes, talvez haja um fundinho de razão para o comentário.

Não tenho razões para estar triste.
Tenho preocupações. Umas minhas e outras que não me pertencem.
Ver se hoje me centro no que realmente importa.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Entretanto

Gosto do optimismo que se encontra neste advérbio. Gosto TANTO.

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#13

Quando vamos jantar a uma feira de artesanato e não nos sentamos e percorremos o recinto todo sem ver nada de nada (valha-nos os músculos ainda não treinados para o peso do pequeno de amigos que dele se ocupam enquanto se come um jesuíta).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O dia de hoje (post alterado)

Hoje o dia não é memorável por qualquer independência de um país.

Hoje o meu avô materno faria 89 anos. São 16 aniversários que ficaram por festejar. Abraços por dar, prendas por abrir.
Lembrei-me de um pólo verde que escolhera juntamente com a minha mãe para lhe oferecer no último dia do pai que festejamos juntos, em 97. A Primavera desse ano deve ter sido fria, porque o meu avô não o conseguiu estrear até aquele dia 20 de Maio. E a 4 de Julho já cá não estava. E ninguém o quis vestir pela primeira vez.
Lembro-me tão bem desse 4 de Julho de 97, onde depois de tanto ter chorado em privado ou junto a quem mais amo, tive um ataque de choro em público, compulsivo, que me levou o ar e as palavras, que me pareceu ser eterno.

Hoje foi o dia que "escolhera" para conhecer a minha sobrinha. O meu palpite falhou (até agora mas nunca se sabe...). É o dia do meu avô Fernando, seria o dia da minha pequena Margarida, brindando os pais no seu aniversário de casamento. E é quarta-feira, o dia da semana em que o Pedro nasceu.

Hoje será dado, com muita probabilidade, um ultimato à minha mãe para deixar de fumar. Tal como sucedeu com o meu avô, que o cumpriu escrupulosamente. Que neste dia a minha mãe se lembre do pai, pela falta que lhe faz, mas também pela sua determinação.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O sétimo sentido

O meu sexto sentido sempre se mostrou apurado.

Depois de ter sido mãe, ganhei um sétimo sentido. É parecido com o sexto, mas dirige-se apenas ao Pedro. Faz com que esteja em alerta constante, apesar da minha aparente e, ao mesmo tempo, real tranquilidade. Faz-me questionar tudo sem que a dúvida me deixe indecisa ou preocupada. Faz-me equacionar todos os cenários sem que pareça um tolo em cima da ponte. Faz-me antecipar respostas sem que a pressa atrapalhe diagnósticos.
Sempre foi assim, desde os primeiros dias do Pedro. Hoje, mais uma vez, o meu sétimo sentido funcionou. No regresso de uma consulta do pediatra ficou uma dúvida, porque preferi questionar o que, provavelmente, poucos questionariam. E se isso me trouxe angústia? Não, fez-me reagir. Mais uma vez.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Um dia melhor do que o outro

Tenho tido dias infernais.
Ontem o dia começou mal e acabou pior (para todos nós penso eu...)
Hoje a vida compensou-me.
Ganhei uma causa. Mais do que isso, um pai "ganhou" uma filha. Como sempre deveria ter sido...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

...

Esta semana iniciou-se com a notícia da morte de uma colega de profissão. 41 anos. Pais e marido inconsoláveis. Há uns 2 anos teve uma gravidez que chegou ao fim, mas nunca teve o seu bebé com vida nos braços.
E entre tantas conversas sobre a injustiça da vida, do que não se espera, do incompreensível, ouvi “ainda bem que o bebé não nasceu, que dor ficar sem mãe tão pequeno, como seria difícil para aquele marido (pai) criar o filho”.
E disse eu, de rajada, “ainda mal”. Logo me vindo à memória um período difícil que vivi pouco depois de ter casado.

Sou filha única. Coube-me a mim receber sozinha o amor imenso dos meus pais, as suas expectativas, os seus planos.
Saí pela primeira vez de casa dos meus pais quando casei. Os preparativos do casamento, a felicidade pós lua-de-mel, a vida nova, tão nossa encheram-me a alma durante algum tempo.
E depois veio uma tristeza. Não por ter saudades de viver com os meus pais. Não por não ser feliz com o Miguel. Aliás, ao contrário do que muitos esperavam por ser filha única e muito ligada aos meus pais, adaptei-me muito bem à minha independência e à nossa vida a dois.
Veio uma tristeza diferente.
Não sei como isto se diz de outra forma, mas a tristeza de morrer e de fazer falta aos meus pais. Não tanto ao Miguel, não tanto à minha família alargada, não tanto aos meus amigos. Porque para todos eles existiria sempre algo ainda, existiria futuro, vida pela frente, mais amor, mais amizade.

E o que restaria aos meus pais?
O que resta a qualquer pai, em que vê no seu filho uma extensão do que é, quando este lhe falta? Nada. Não resta nada.
E pensava muito nisso por não ter, ao tempo, ainda, descendência. De mim, ao tempo, se algo me acontecesse, só ficariam memórias.

Hoje vivo mais serena relativamente a esse receio, porque hoje existe o Pedro. E nele estou eu também.

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#12

Quando a nossa cadela, numa semana, já engoliu um peixinho de borracha e um caranguejo com íman (curiosa é a preferência por animais marinhos...)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Os meus santos e as minhas "ambiguidades"

Devo ser a descrente com mais santinhos que existe por aí.

Lembrei-me disto porque hoje é dia de Santo António e porque se aproxima o baptismo da minha afilhada Maria.
Não tive educação religiosa. Os meus pais não são religiosos, apesar de desconfiar que o meu pai é crente (não fala em Deus mas sinto-lhe fé em algo que define como para lá de nós).
No entanto, as minhas avós sempre foram católicas e praticantes, pelo que me habituei cedo a alguns rituais, a alguns costumes. E a respeitar.

Quando fui convidada pela primeira vez para madrinha, do meu já tão grande Gonçalo, senti uma comoção enorme por ver nesse papel o reconhecimento de que somos importantes para quem nos convida e pelo dever que nos confiam de assumir um amor maior por aquela criança.
Só depois me confrontei com a necessidade de esse papel passar também por uma formalização que não era compatível com a minha descrença. O que me preocupou, não por achar que estaria a ser hipócrita por jurar perante um padre algo que nunca iria fazer, porque nunca poderia transmitir ao Gonçalo algo em que não acredito, mas por recear não estar à altura daquele formalismo. Estive à beira do pânico porque foi um baptizado singular e eu estava mesmo ali à frente, todos os olhos em mim, e eu sem saber benzer-me ou rezar, e o padre a fazer perguntas…
E quando digo que não me senti hipócrita, digo-o com sinceridade, porque o Gonçalo sabe que as juras que lhe fiz, logo que o ouvi pela primeira vez, foram juras de um amor maior, que está para lá de qualquer crença.

Aliás, o meu marido também não é religioso, mas se o fosse, independentemente do seu credo, se manifestasse vontade de casar segundo um determinado ritual, fá-lo-ia sem qualquer hesitação, porque concebo entregar-me a uma formalização religiosa simplesmente porque estamos a falar de amor.
E, quando eu e o Miguel fomos convidados para padrinhos da Maria, já sabíamos que nos iríamos confrontar com esta necessidade de aparentar o que não somos, mas isso, mais uma vez, por um amor maior que justifica tudo.

E digo mais. Não sendo religiosa, quando a vida me leva a uma igreja, por um casamento, por um funeral, estou absolutamente atenta porque procuro retirar das palavras de alguém que de mim tanto se distancia, o que em todas as religiões ou descrenças existe em comum.
Mas voltemos aos santinhos.
Hoje é dia de Santo António e, sendo descrente, tenho um busto deste santo na minha sala. Chegou a minha casa por mero acaso e, só depois de lá estar, é que me foi oferecido. E adoro-o. Pelo simbolismo. O Santo António é o santo casamenteiro e para mim representa essa união. Faz sentido na nossa casa, por isso, aí ficou em lugar de destaque.
Na minha carteira dos documentos trago um Santo Onofre e uma Nossa Senhora do Ó, ambos oferecidos pela minha avó paterna, o primeiro há muitos anos, a segunda quando engravidei, bem sabendo que era descrente. Mas ela, que em tanto nos santos confiava, ao oferecer-mos, deu-me a sua (da minha avó) confiança, a sua protecção, e, por essa razão, nunca os tirarei da carteira.

O meu filho tem um terço oferecido pela tia Aninhas, que guardo numa caixinha no seu quarto. Quando mo deu, disse-me “eu sei que não acreditas”. E eu interrompi-a e disse-lhe “basta-me que tu acredites para saber o que este terço representa para o meu filho”
“...representa o teu amor”.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dar-me ao trabalho


Pré-aviso: este post é algo (muito) imodesto, mas depois de uma conversa com a minha secretária e de um telefonema de um cliente que me acabou por tratar por “meu anjo”, não resisti.
Em resposta a uma pergunta da Mum’s the boss no seu blog sobre a nossa “missão” por cá, acabei por escrever que era mesmo boa a “dar-me ao trabalho”.

E sou.

Profissionalmente, esfarrapo-me quando tem que ser, mesmo que não tenha qualquer compensação monetária por isso. Causas grandes ou causas pequenas recebem exactamente o mesmo empenho, se é de justiça que estamos a falar. Se a questão estiver relacionada com crianças, vou ao limite, ao limite mesmo, não deixo nada por fazer, procuro tudo, vou para lá do politicamente correcto para que não fique eu com um problema de consciência que poderia ser evitado com uma decisão mais célere.
Aos meus familiares, nunca nego um beijo, um abraço, um mimo. Escrevo-lhes muito, para que um dia, quando cá já não estiver, o meu amor se continue a manifestar através das minhas palavras. Mesmo ao meu pai, que é feito de outra massa, tão diferente da minha, a quem preciso de arrancar um beijo, para lá do abraço e do beijo a cada dia, lhe vou dizendo, de quando em quando, que o adoro, para que se habitue a este amor dito e não contido.

Ao meu amor Miguel, pelo amor em pormenor que lhe vou revelando desde há 13 anos. E sempre me surpreendo com esta capacidade de reinventar o amor em pequenas coisas, nem que seja na surpresa das surpresas que lhe rouba lágrimas ou numas meias novas pelas que rasga a cada semana.
Ao meu amor Pedro, pelas promessas que lhe faço em silêncio, por continuar a brincar mesmo quando os meus olhos insistem em cerrar tal o cansaço, por procurar dar-lhe a conhecer o mundo, num mergulho de piscina, num movimento teatral, no cheiro da terra, nos sons dos patos, do piano, da guitarra, no girar das rodas, na colher de gelado dos mais diversos sabores, no rebolar do chão, ainda que se suje tanto que não me deixe dúvidas de que as nódoas persistirão (ainda não foi inventado detergente tão eficaz) mas que é feliz e que nada do que é bom na vida lhe é negado.

Aos meus amigos, dou-me ao trabalho de lhes mostrar como é rara esta amizade que nos calhou, fica dito nos abraços, nos beijos, nos postais, nas cartas antigas, nas sms sem especial razão, nos lanches, nos jantares, nos almoços de Domingo, nos risos, nos choros.

Aos meus outros familiares não tão próximos, quando planeio uma surpresa daquelas, perfeita mesma, bem sabendo que quem o devia fazer não o faria, bem sabendo que por mim não haveria tanto empenho.
Aos outros, que não me são nada, dou-me ao trabalho quando acho que o merecem, seja ao arrumador de carros que foge de mim para não me pedir moeda, mas que um dia precisou de ajuda, seja à neta do sapateiro, que, de outro modo, não teria um ovo de chocolate na Páscoa.

Aos animais, pelo cuidado que lhes dediquei sempre que me caíram nas mãos. É uma coisa mesmo curiosa, mas parece que tenho uma certa queda para salvadora de bichos: já salvei um gato que caiu da chaminé de uma casa de férias no Algarve, um melro que caiu do ninho antes do tempo, um periquito que me entrou pela sala dentro enquanto estudava, um agarponis azul quando, num dia triste, ia tomar um café e o vi no chão da estrada, na linha contínua, e fiz parar o trânsito, em pleno Porto.
Tudo isto sai-me do corpo, mas compensa. Ou seja, dou-me ao trabalho pelos outros e por mim.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Nós, as espécies raras

Na sexta-feira ouvi o Eduardo Sá dizer que o círculo de amigos se fecha após o final do curso superior.
Só para informar que no nosso grupo de amigos é exactamente ao contrário: o círculo não pára de crescer, o seu diâmetro aumenta a olhos vistos.

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#11

Quando, a propósito de uma indisposição de um amiguinho da mesma idade devido a sapatos apertados, o nosso marido comenta: "não dá para apertar os sapatos ao Pedro de vez em quando, só um bocadinho, para ver se ele pára?"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mais um selo

Recebi este selo da querida Princesa que não se cansa de me presentear. Obrigada.


Gosto de receber os selos porque é uma forma de nos darmos a conhecer. Tenho dificuldade em retribuir porque ou os blogs que sigo já os receberam ou não ligam nenhuma a estas coisas. Por isso desde já ficam as respostas mas não o cumprimento de o passar a outros blogs.

Qual o teu clube? FCP, desde pequenina.

Qual o teu maior sonho? É uma resposta difícil… Ser importante, ter um lugar, deixar algo (não material, note-se) a quem me é mais próximo.

Qual é o teu animal favorito? Cavalo marinho

O que mais te irrita? Estar com pressa, contar os minutos e ter alguém à frente que fala ou faz o que tem a fazer muito devagar.

Que tipo de filmes preferes? Gosto de todos, porque gosto de rir, porque gosto de me comover, porque gosto de ficar a pensar, porque gosto de ter o coração aos pulos. Só não gosto de terror!

Qual a rede social que mais gostas? Só aderi a uma, Facebook.

Quais as palavras que estás sempre a repetir? Nesta fase de encantamento pelo meu pequeno, “meu amor”, “meu texuguinho”, “meu malandreco”, “meu menino mais lindo”, ou seja MEU - isto revela um sentimento de posse que tem que ser contrariado ;)

Diz um desporto que adores? Adorar? Nenhum! Não desgosto de ténis e agora deu-me para correr.

Se pudesses pedir um desejo ao génio da lâmpada qual seria? Ou seja, trata-se de um desejo impossível, certo? Por isso, pediria para ter dormido mais enquanto pude!

Qual o teu nome? Ana

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Das pessoas verdadeiramente bonitas (análise do ponto de vista meramente estético)

No seguimento de uma conversa ao jantar com o Miguel, surge este post. Pura constatação sem utilidade nenhuma (quem quiser pode parar de o ler agora mesmo).

...
A passagem dos anos vai fazendo bem e fazendo mal à beleza das pessoas. Varia.
Excepto (muito) raras excepções, nunca acho um bebé recém-nascido feio, porque me encantam as orelhinhas minúsculas, o nariz arrebitado, a serenidade, o cheiro, os barulhinhos.
O tempo vai passando e começam-se a notar os traços da beleza ou não que calhou àquela criança. E aí sim, já consigo notar quem é bonito e quem é feio, sendo certo que, se a criança for simpática quase que a acho bonita porque é irresistível a imprevisibilidade do que lhe sairá pela boca.
E depois vem a adolescência e é aí que a coisa descarrila. É que, do meu ponto de vista, mesmo o adolescente que foi uma criança bonita, deixa de o ser. As borbulhas na cara, o andar desengonçado, o nariz e a boca que parecem que crescem (falo por experiência própria, o meu nariz na adolescência era mais largo, à semelhança do que me aconteceu no final da gravidez), os devaneios na forma de vestir…
Só que as pessoas verdadeiramente bonitas são-no na mesma na adolescência. Conheço algumas para quem a adolescência não lhes causou mossa na beleza. Como é que isso se vê? Quando olhamos para as fotos dessa época e não vemos grandes diferenças relativamente às mulheres e homens em que se transformaram.
Para os outros que não cabem nessa classe privilegiada, a passagem à vida adulta traz uma beleza que se consegue com uma pele mais limpa, com um arranjo de sobrancelhas, com um corte de cabelo, com uns trapinhos mais aceitáveis.
E por fim, já adultos, as pessoas verdadeiramente bonitas ficam bem de qualquer maneira.
Tenho uma colega de profissão, com quem não tenho nenhuma relação pessoal, pelo que a minha visão não está deturpada por qualquer ligação de amizade, que, sempre que a vejo, está impecável. Mãe de 3 filhos e uma peça da Zara parece nela algo da alta costura. Um cabelo lindo, perfeito, que não se deve despentear nem durante o sono. Uma cara sem imperfeições que me faz questionar que corrector de olheiras usará. Uma postura irrepreensível, que até de fato de treino, deve impor respeito.

E foi isto que me veio à cabeça. Já passou.

Não dá para esconder que temos um filho pequeno...#10

Quando a simulação do reembolso de IRS nos dá óptimas notícias, numa época em que toda a gente se queixa que vai pagar ou receber menos! 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Meu amor Miguel

Estivemos juntos mesmo antes de nos conhecermos.
Cruzei-me várias vezes contigo quando ainda era outra a namorada que levavas a casa.
Depois, um jogo de futebol levou-nos a iniciar uma amizade.
Antes, quando ainda tinhas pera e não usavas gel.
Chorei no teu ombro por outro que queria como namorado.
E um dia, sem conseguir explicar, numa queima das fitas, tentei mostrar-te que afinal era de ti que eu gostava.
Errei. Não foi o sítio certo. E essa minha mania de dizer as coisas por palavras mais dúbias, essa minha mania dos segundos sentidos das frases e das coisas, essa minha mania de carregar emoções naquilo que tu, como verdadeiro “engenheiro” que és, não alcanças.
Errei, mas chegamos lá.
E podia eu imaginar que tantos anos depois seríamos família…
Ainda namorávamos e num aniversário, quando ainda não tinhas passado à decada dos 30, dei-te um presente que ainda hoje me orgulha. Um livro com dezenas e dezenas de páginas, para te escrever em cada aniversário. Nesse presságio de que iríamos ficar juntos por muito e muito tempo, que seria grande o nosso amor, tão grande que encheria um livro. Olho para ele e hoje já tem tantas páginas escritas.
Olho para trás e vejo tanto.
Vejo rosas brancas, amor em cartas, primeiras viagens, beijos, promessas cumpridas, colares repetidos, surpresas, troca de abraços, um “amo-te muito” a cada noite, mãos dadas, choros partilhados… um filho.
E, tal como quando te dei aquele livro pelo teu aniversário, olho para a frente e vejo tanto.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Só para dizer que o post anterior poderia ter como título:
Quando for grande quero ser...uma vencedora do euromilhões!

Quando for grande quero ser... outra coisa qualquer

Hoje precisava de mudar de profissão.
Estou exausta pela responsabilidade, pelo peso do erro de falhar, pelas voltas e voltas da minha consciência.
Hoje precisava de chorar, só um bocadinho.
Mas não me deixam.
E pior, ninguém me entende.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Eu, a espécie rara.


Pensei muito antes de publicar este post, porque é algo de muito pessoal e porque a minha perspectiva e experiência sobre a questão são muito diferentes de tudo o que tenho visto escrito ou dito. Acho, até, que o que escrevo é, mesmo, politicamente incorrecto, porque não se esperam palavras destas vindas de uma mãe… ou direi mulher ou direi as duas coisas?

Li no blog da Ana Melancia um post que se iniciava com uma frase do Eduardo Sá:
“É fundamental que a relação amorosa dos pais esteja em primeiro lugar, antes da relação dos pais com as crianças”.

Comentei o post, dizendo que discordava, porque o que penso é que cada uma das relações devem andar lado a lado, devem pesar-se uma e outra de forma equitativa e não dar mais importância a qualquer uma delas.
Entendo, tal como a Ana respondeu ao meu comentário, que o que o Eduardo Sá pretendia era alertar para o facto de, recorrentemente, se descurar a relação do casal pelo embriagamento de sentimentos que um filho nos traz, mas, mesmo assim, acho que a frase merecia uma reformulação.
Certo é que o aviso faz sentido porque já pude constatar, tantas vezes, neste universo enorme de mães e pais que conheço, que na generalidade das vezes a relação do casal sai desfalcada perante a relação com os filhos.

Mas é aqui que entra a espécie rara: eu!

De todas as vezes que o assunto foi abordado, sempre senti que o primeiro lugar do pódio ia para a relação com os filhos, mas que disso se queixavam os pais (diga-se, os homens) e não as mães. Ou seja, que o amor imensurável de uma mãe pelo filho abafava aos poucos a relação do casal.
No meu caso foi ao contrário.
Quem se sentiu incompreendida por uma ausência que não esperava, quem se queixou desta sensação de afastamento, quem não aceitou passivamente o desequilíbrio das relações fui eu.
Por vezes, equacionei, até, se o meu amor pelo meu filho, que me parecia tão genuíno, tão das entranhas, não o seria afinal, por não me satisfazer na plenitude, por ainda assim ter saudades de um tempo em que eramos dois.
E foi esta espécie rara que insistiu para marcar um jantar a dois, um ou dois meses após o nascimento do Pedro, que insistiu para que o Pedro ficasse uma noite com os avós, que se deu conta que 10 meses depois ainda nem tínhamos ido ao cinema…
Aos 14 meses do Pedro, sinto mudanças, mas este sentimento de espécie rara está-me agarrado. Porque nunca ouvi nenhuma mulher queixar-se disto, nunca vi nenhuma mulher lutar tanto para que as relações se equilibrassem.

É, posso ser espécie rara, mas, para lá de transparente, a minha persistência tem vindo a dar frutos. E é o que importa.